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Sessão da tarde

Um clássico, um lixo. A Vingança dos Nerds já começa com esse nome meio cômico, que não deixa a dever aos títulos dramáticos dos seus colegas na televisão aberta vespertina dos anos 80 e 90 (O ataque dos vermes malditos, o ataque das abelhas assassinas, o ataque das cobras e todos os outros tipo de ataque por animais os mais variados). Assisti novamente outro dia – pela primeira vez do começo ao fim e depois de adulta – e, como gosto de refletir sobre virtualmente qualquer coisa, resolvi fazer alguns comentários aqui.

Só o espaço que o filme conquistou na lembrança de quem viveu os anos 80 (a geração-apartamento que não tinha TV a cabo ou internet o assistiu à exaustão) já faz com que alguma relevância ele tenha. Pode ser muito podre, mas deve ter sido parcialmente responsável pela difusão do estereótipo do nerd. Não que o estereótipo seja bom, mas é um fenômeno de alguma importância, ainda mais considerando que, já nos anos 90, os nerds do filme pareciam ter passado sua mensagem e ser nerd era uma bandeira defendida com unhas e dentes pelos garotos e garotas que usavam óculos, tinham um senso particular da moda e eram “teacher’s pet”, ou seja, o perfeito cdf (entre os quais me incluía eu mesma e mais um bom punhado de colegas).

Além disso, os nerds foram os pioneiros do Big Brother, ao colocarem câmeras escondidas na casa da irmandade das meninas bonitas e populares, que haviam sido responsáveis pelo fracasso da primeira festa da irmandade dos nerds (lambda lambda lambda). Com um equipamento digno de Missão Impossível, eles invadem a casa e usam seu conhecimento em tecnologia para instalar câmeras que transmitem ao vivo tudo que acontece dentro da casa das meninas. Resultado: os nerds passam uma noite inteira acordados em frente à TV olhando as meninas tomarem banho, se trocarem, fofocarem, e sabe-se lá mais o que. Ao ver isso, imediatamente me lembrei das pessoas que compram pay per view do Big Brother para poder assistir a qualquer hora do dia e da noite a suposta intimidade alheia.

Uma contribuição da Vingança dos Nerds para a cultura popular brasileira (universitária paulistana, em todo caso) são as modalidades esportivas do torneio entre irmandades. A Poli, reduto nerd por excelência em São Paulo, tem em suas Olimpíadas a famosa corrida de triciclo com cerveja, em que os marmanjos saem pedalando um triciclo infantil e a cada volta completada tem que tomar uma latinha de cerveja. Ganha quem conseguir continuar pedalando por mais tempo. Outras modalidades praticadas em jogos universitários de São Paulo, como o campeonato de par ou ímpar, não aparecem no filme e parecem ser inovações brasileiras mesmo (com potencial para serem exportadas).

Ao final do filme todos parecem se identificar com os nerds, e somente os trogloditas do time de futebol americano ficam de fora. Pode ser meio pretensioso, mas o filme talvez tenha sido o primeiro passo em direção ao combate ao bullying, tão em voga hoje. Claro que, no filme, os nerds revidam fogo com fogo: instalam as câmeras na casa das meninas, colocam uma substância nos uniformes dos jogadores de futebol que provoca coceira nos genitais, e um dos líderes nerds faz sexo com a cheer leader fantasiado de Darth Vader (quer mais nerd do que isso?), fazendo-se passar pelo namorado dela. O essencial, no entanto, é que eles se recusam a ser excluídos e maltratados por serem “diferentes”.