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As águas é que são felizes…

Quando morei na Europa pela primeira vez, em Paris, tive a sensação de que aqui era “muito mais perto do resto do mundo”, porque você vê gente do Oriente Médio, da África e da Ásia, muito mais do que costumamos ver no Brasil. Também há brasileros e outros latino-americanos, evidentemente. Alguns vem para cá fazer um pé de meia, outros simplesmente na esperança de sobreviver, como é o caso daqueles que vem de países em guerra ou em situação de risco.

Esses imigrantes de todos os cantos do mundo que vem tentar a sorte aqui são o contrapé do ideal de mobilidade e mundo sem fronteiras que os otimistas do pós modernismo apregoam. Ora, as fronteiras continuam firmes e fortes, já dizia o Karnak em Estamos Adorando Tóquio:

“Tu é peruano, entrou pelo cano,

Cadê a muamba, não pode passar!

Tu é iugoslavo, não tem um centavo,

E ainda quer visto para o Canadá!”

E o refrão:

“As águas é que são felizes

Não tem que ter visto pra entrar no país

Por que eu fui nascer na Romênia

Se o meu grande amor ainda vive em Paris?”

Ontem assisti a uma mesa redonda sobre os imigrantes ilegais na Suíça. Entre os participantes, estava Djemâa Chraïti, aquela escritora suíça que eu já mencionei em outro post. Ela escreveu um livro baseado nas histórias de vida dos colombianos ilegais que trabalharam na casa de sua avó quando ela estava idosa demais para se cuidar sozinha.

Um dos pontos que se levantou, sobre o qual ela é especialmente qualificada para testemunhar, foi a dependência dos suíços desses ilegais. São eles que fazem faxina, baby-sitter, acompanham os idosos… os conservadores fazem de tudo para dificultar a permanência desses imigrantes aqui, e procuram culpá-los pelos problemas de segurança que vem aumentando.

O que aconteceria, porém, se de um dia para o outro todos eles sumissem? – perguntou outro participante da mesa redonda. Só assim, talvez, os suíços poderiam se dar conta de quanto é cômodo para eles ter mão de obra barata para esse tipo de serviço, e quão inconveniente seria impedir a chegada dessa mão de obra. Vocês talvez se lembrem que alguns anos atrás os palestinos que trabalham em Israel fizeram algo semelhante, uma espécie de greve. Não me lembro de detalhes, mas lembro que a reportagem falava do lixo que ficou por recolher nos bairros residenciais, nas calçadas por varrer… aqui seria semelhante.

Esse é o caso dos que vem aqui para trabalhar, como fazem tantos brasileiros que partem para os Estados Unidos, a União Européia ou o Japão. Alguns, é verdade, conseguem se virar bem e levam uma vida minimamente confortável, embora com as restrições de mobilidade de quem não tem visto de trabalho. Mas existem, como mencionei acima, aqueles que vem para  fugir da morte em seus países, muitos deles africanos. Eles podem se candidatar a asilo, mas nem sempre conseguem. Há pouco mais de um ano mudou a legislação, impedindo aqueles cujo pedido de asilo for recusado de ter acesso aos auxílios do governo. Pode parecer uma medida de bom senso, afinal, nenhum país quer sustentar ilegais, mas na verdade isso cria é um contingente humano vivendo em condições extremamente precárias.

É uma situação complexa. O objetivo na mudança da lei era dissuadir a entrada de candidatos a asilo. Porém, depois de um ano de implantação, a medida não parece ter surtido efeito (mais aqui e aqui, em francês ou alemão). Para complicar mais a situação, alguns dos candidatos a asilo são menores de idade. Imaginem essas crianças e adolescentes, que saíram de um cenário de guerra ou de extrema miséria, chegam aqui, não conseguem ficar legalmente, não tem acesso à escola, não tem uma estrutura familiar, e acabam não raro se engajando no tráfico de drogas ou na prostituição. É uma bomba relógio social, além de ser uma afronta aos direitos humanos. Que tipo de adulto essas crianças vão se tornar?

A imigração ilegal é um pouco como a crise financeira. Uma consequência do funcionamento da economia mundial. Qualquer tentativa de varrer os imigrantes para baixo do tapete, como vem tentando fazer a Itália, está fadada ao fracasso. Em vez de tentar podá-los como ervas daninhas, os países europeus (e a Suíça também) precisam tomar atitudes pautadas pela dignidade.

Nem Pelé, nem O Guarani – Federer e Guilherme Tell

Bandeiras de Cantões suíços e da comuna de Carouge. Place de la Sardaigne, Carouge (Foto: Maria Alice Stock)

O único dia em que se pode ouvir fogos de artifício em Genebra é 1 de agosto, dia Festa Nacional (que comemora o pacto assinado entre os três primeiros cantões em 1291 de lutar contra a dominação estrangeira). Não, eles não soltam fogos no ano novo, nem quando o time de hockey de Genebra, o Servette, ganha (o máximo que eu já ouvi foi um vizinho entoando o grito da torcida: “allez, Servette, allez, allez”). Hockey é um esporte de destaque aqui, embora não chegue aos pés da adoração que os suíços tem pelo Federer. Tem um jornal sensacionalista que fez até concurso para os leitores tentarem adivinhar o nome das gêmeas recém nascidas do tenista no ano passado.

Não sou particularmente ligada em tênis – pra dizer a verdade não entendo o sistema de pontuação, mas também nunca tentei com muito afinco – então tive que ir dar uma olhadinha na Wikipedia. Lá fiquei sabendo que na infância o Federer hesitou entre tênis e futebol, esporte para o qual ele levava jeito. Já pensou se ele tivesse escolhido o futebol? Será que esse seria um esporte mais importante por aqui? Os suíços (genebrenses, em todo caso) são tão desligados do futebol que pouco tempo atrás conversei com algumas pessoas, em ocasiões diferentes, que achavam que a Copa deste ano seria no Brasil, não na África do Sul. Isso sendo que a Suíça se classificou, vejam só! Para eles é coisa de outro mundo o país parar para assistir a uma partida de futebol, quando eu conto como é no Brasil eles acham a maior graça.

O primeiro herói nacional – A lenda de Guilherme Tell é uma das coisas que você provavelmente conhece sem saber que é suíça. Essa é aquela história do arqueiro que é obrigado a provar seu talento acertando uma flecha na maçã posta sobre a cabeça de seu filho, e é uma peça importante do folclore suíço.

Nessa época, a Áustria dos Habsburgos dominava o cantão de Uri (um dos três que haviam jurado lutar contra a ocupação), onde Tell vivia. Segundo a lenda, o governador austríaco da cidade de Altdorf pendurou um chapéu em um mastro numa praça, simbolizando o poder habsburgo. Todos deveriam se curvar diante do chapéu, em sinal de submissão. Guilherme Tell e seu filho passaram na praça sem fazer a reverência, e foram feitos prisioneiros. O governador obrigou Guilherme a acertar uma flecha na maçã sobre a cabeça de seu filho e, como sabemos, ele conseguiu.

Mas a história não acaba aí (eu sempre pensei que com a maçã tudo estivesse resolvido). O governador notou que Guilherme tinha uma segunda flecha, e perguntou-lhe por que. O arqueiro respondeu que, caso tivesse errado e matado seu filho, iria acertar a segunda flecha no coração do governador. Furioso, ele mandou prenderem Guilherme novamente. Quando o governador e seus homens levavam Guilherme para a prisão, viajando de barco sobre o Lago Lucerna, começou uma tempestade, e acabaram soltando Guilherme para que ele pudesse conduzir o barco (aparentemente, ele era bom em tarefas tipo Missão: Impossível). Assim que conseguiu chegar à costa, Guilherme se escondeu e depois assassinou o governador, iniciando o levante contra a dominação austríaca de 1308.

Como é Genebra, afinal? – Parte 2

No país dos bancos, o e-banking ainda está engatinhando

Você adora quando alguém faz um DOC pra sua conta e o dinheiro já aparece no mesmo dia, embora fique 24 horas bloqueado, né? Então, aqui não existe isso. Pelo menos, não no banco em que eu tenho conta, que é um banco classe média. Eu sempre tinha imaginado os bancos suíços como escritórios super chiques onde serviriam Nespresso para clientes (muito) endinheirados. Pode até ser que seja assim em alguns lugares, mas as agências dos bancos para comuns mortais como você e eu não são muito diferentes das do Brasil, exceto que aqui é muito mais complexo e burocrático fazer coisas que no Brasil estamos acostumados a resolver pela internet.

Na Suíça funciona assim: para transferir dinheiro de uma conta para outra, você precisa preencher um formulário com cópia em papel carbono (!) com todos os dados da sua conta e da conta para a qual você está transferindo. Daí você tem que assinar esse papel e entregar uma das vias para a caixa do banco e esperar dois dias. Se a transferência não foi feita, é porque a pessoa responsável não entendeu a sua letra e você tem que preencher tudo de novo! Nada de usar sua senha, procedimentos via internet ou caixa eletrônico. Caixa eletrônico aqui, aliás, faz algumas coisas que os do Brasil não fazem, como trocar francos suíços por euros e aceitar depósitos em moedas. Mas não faz coisas básicas como pagar conta de luz ou consultar a fatura do cartão de crédito.

O pagamento das contas é outra coisa que me intriga sobremaneira. Os boletos bancários não vem com código de barras. Eles vem numa folha picotada onde está escrito o nome e endereço do favorecido e o nome e endereço de quem está pagando. Às vezes, vem sem o nome de quem está pagando e você tem que preencher à mão antes de pagar. É o caso desse boleto aí embaixo, que veio numa cartinha pedindo doações para a Sociedade de Proteção aos Animais (nesse caso, o valor a depositar também está em branco, pois você pode escolher):

O jeito mais comum de pagar o boleto é indo nos Correios (ou no caixa “com pessoas” do banco). A moça do caixa cobra o valor correspondente e carimba o boleto atestando que já foi pago. Daí ela devolve o canhotinho carimbado para você guardar como comprovante. A outra parte do boleto, eu presumo, fica em uma gaveta até o final do dia, quando algum infeliz tem o contagiante trabalho de separar todos os boletos e encaminhar o que é de quem. Ou seja, não é que o dinheiro que você pagou vai automaticamente para a companhia de luz, por exemplo. Ele vai para o caixa dos Correios, que depois vão ter que repassar o valor para a companhia de luz, e para saber quanto tem que repassar eles tem que contabilizar todos os aqueles pedacinhos de papel carimbados! Parece coisa dos Flintstones, né?

É possível pagar boleto pela internet (ufa, ainda bem!) mas como nesse caso você não recebe o carimbo, fica difícil provar que você pagou, caso seja necessário. Eu por exemplo deixei de conseguir um reembolso do plano de saúde por causa de uma fatura que paguei pela internet e, mesmo imprimindo o comprovante do e-banking, não consegui provar que tinha pago. Isso porque o comprovante emitido quando você paga via internet não diz o favorecido! Parece que você está numa versão mais amena de um livro do Kafka, mas é a vida normal de Genebra mesmo.

Como é Genebra, afinal? – Parte 1

Gaivotas em um dos piers do Lago Léman

Inspirada por um post do meu amigo Denis sobre Berlim, resolvi escrever um pouco sobre coisas cotidianas e curiosidades de Genebra. Nos próximos sete dias, vou colocar no ar um tópico por dia. Comecemos pelo básico:

Onde, como, quando, por quê?

Ah, aquela pegadinha do professor de Geografia: qual a capital da Suíça? Não, não é Genebra, é Berna, que fica mais a nordeste, na parte alemã.

A propósito, a primeira coisa que eu acho estranha neste país é que eles falam quatro línguas oficiais: alemão (64% da população), francês (20%), italiano (6,5%) e romanche (0,5%). A conta não fecha em 100%, né? É porque os 9% restantes falam línguas estrangeiras (entre elas o português, como veremos em um post futuro). Na escola, as crianças aprendem as três línguas principais, mas pelo que vimos até agora elas tratam de esquecer as duas que não usam no dia a dia depois.

A Suíça existe desde 1291, quando os três primeiros cantões se uniram contra a dominação dos Habsburgos. A partir daí, outros cantões foram de unindo à Confederação até chegarem à formação atual. Aliás, muita gente que já visitou Genebra acha que a Suíça tem 22 cantões, por causa da praça que tem esse nome. Na verdade, são 26 cantões hoje em dia. Só que Genebra foi o vigésimo segundo cantão a entrar para a Confederação, por isso eles gostam de lembrar esse momento na história.

O cantão de Genebra (que é basciamente composto pela cidade de Genebra e seus “subúrbios”) é um pedacinho de Suíça “cercado de França por todos os lados”. Bem, não todos, uma pequenina extensão faz fronteira com o Cantão do Vaud. Em 1815, quando Genebra entrou para a Confederação Helvética (de onde vem a sigla CH para identificar Suíça), a França cedeu um pedaço de terra para que houvesse continuidade territorial, senão Genebra teria sido mesmo um Cantão Suíço “ilhado” na França.

Fonte: Swiss Federal Statistic Office, 2010 (http://www.bfs.admin.ch). As anotações são minhas.

Esse lago enorme que tem uma pontinha em Genebra é o Léman, onde tirei a foto com que começa o post.

No centro velho da cidade, um dos meus lugares favoritos, tem uma escultura celebrando o Charles Pictet de Rochemont, o diplomata que habilmente conseguiu convencer a França a ceder as terras (imagino ele como uma espécie de Barão do Rio Branco para os genebreses). É este sujeito aqui:

Pictet de Rochemont, curtindo um lindo dia de inverno (Janeiro, 2010)

Longe de casa há bem mais de uma semana

Com que motivação partir para a faxina semanal do meu apartamento, que já está atrasada de alguns dias? De repente sentada ao computador ouvindo uma das minhas trilhas sonoras preferidas, percebi que estou triste. Tal qual a Maria Antonieta de Sofia Coppola passeando pelos jardins de Versalhes, tenho o despeito de ficar triste, mesmo sendo um dia de sol, mesmo estando em um dos países com melhor qualidade de vida no mundo, mesmo sendo amada pela minha família – coisa com que a Maria Antonieta talvez nem pudesse se consolar, a julgarmos pelo que sobrou daquela época.

Andei lendo um livro que se chama Os Clandestinos de Minha Avó, de uma autora suíça de origem tunisiana chamada Djemâa Chraïti. É um livrinho curto, meio romanceado, meio verídico, sobre imigrantes ilegais colombianos que trabalharam no apartamento de sua avó, amaparando-a quando já estava idosa demais para levar sozinha sua rotina. No livro, os colombianos ficam chocados com a solidão das pessoas na Suíça, com a distância entre os membros da mesma família, com esses idosos que precisam de ajuda mercenária porque as famílias não dão conta, ou não querem se envolver, com o dia a dia de quem está terminando sua temporada terrena.

Também há as histórias muito tristes desses imigrantes, as razões que os levaram a deixar seu país natal e desembarcar nesta cidade que até hoje guarda a austeridade inspirada nos tempos de Calvino. Só lendo o livro foi que percebi quanta miséria existe mesmo aqui, embora não se veja muita gente pedindo dinheiro e não se ouça falar de gente que morre de fome, existe tanta miséria para além disso. Os apartamentos onde os imigrantes vivem empilhados uns nos outros, o medo constante da polícia, as saudades de casa – essas eu conheço bem, embora possa aplacar um pouco com o Facebook e o Skype, e além do mais eu não deixei para trás marido e filhos, como é o caso de muitos desses colombianos e com certeza de ilegais de outras nacionalidades também.

Acho que tenho sim o direito de ficar triste por uma coisa dessas. É gritante ver quão grande é a diferença entre a vida de um ilegal que chegou aqui para lavar pratos e a minha, que passo os dias lendo e escrevendo em casa e em breve vou frequentar a universidade. Enquanto picava uns champignons para o jantar de ontem eu pensava naquelas pessoas que acham que arte e filosofia são coisas para crianças mimadas e concedi que, se a pessoa que pensa assim teve que lutar pra sobreviver, posso lhe oferecer um pouco de compreensão ou, no mínimo, de compaixão.

Também me entristeceu perceber que, ao menos para os que serviram de personagem para o livro, ficou impossível voltar para casa depois de viver esse inferno na Suíça. Não tem nada esperando por eles em seu país de origem, eles perderam as raízes, não porque foram aculturados, mas porque tiveram que descer tão baixo na humilhação que já não encontram lugar onde quer que seja. Lá são olhados com inveja, desconfiança ou rancor pelos que ficaram, aqui são discriminados e quando muito tratados com algum paternalismo. É o tipo de coisa que o Manu Chao estava querendo dizer em Clandestino. Tem medo maior do que perder seu lugar no mundo?

Recebi esse livro da própria autora, que entrevistei para uma possível matéria para um site francês. Foi só depois de terminar de ler que entendi o que estava de fato por trás dos olhares curiosos que ela me lançava enquanto perguntava ao final de nossa conversa como eu me sentia na Suíça, o que eu achava dos suíços, se eu não estranhava as pessoas… eu respondi que gostava daqui, que sentia falta das pessoas do Brasil, que não conhecia muito bem os suíços, então não podia emitir uma opinião… criança mimada eu, ganho chocolate suíço todos os dias e fico bem protegidinha dos julgamentos deles e da tristeza daqueles que vivem pior que eu, e passo o dia fazendo essa filosofia de bar (ou de casa de chá, já que tomo muito mais Earl Grey do que cerveja) e escrevendo histórias para os meus semelhantes.

Acho que também uma outra ficha que caiu com o livro foi que, sim, eu tenho direito de não gostar daqui se quiser. Eu não preciso achar tudo maravilhoso simplesmente porque estou na Suíça! Parece que se a gente reclama para os conhecidos que estão no Brasil, estamos fazendo algum tipo de sacrilégio. Pois é, vai aguentar estar numa cidade tão diferente daquela em que você cresceu, onde você não conhece quase ninguém, justo você que gosta de falar sem parar e nunca almoçava sozinha em São Paulo. Ia ser dificil em qualquer lugar, em Londres, em Paris, em Barcelona. E suspeito, cada vez com mais segurança, de que é mais difícil ainda sendo uma cidade de 180 mil habitantes que tem um comportamento austero.

Nós achamos estereotipados os comentários de que brasileiros são festeiros, dançam, riem, cantam. Quando você vem para um lugar como Genebra você vê que, perto deles, somos mesmo os maiores boêmios, mesmo eu, que nunca saía para dançar em São Paulo e só de vez em quando para um bar. Em São Paulo não é preciso cair na balada para ter uma noite animada, reunir os amigos em casa já é suficiente. Aqui eu fui pela primeira vez a uma festa sem música. É, não tinha música, só as pessoas comendo e conversando. Meu homeopata daqui, que é suíço, disse que a esposa dele foi fazer um curso em outra cidade da Suíça onde não conhecia ninguém, e logo que chegou era seu aniversário. Ela tinha uma colega brasileira no curso que, quando ficou sabendo do aniversário, organizou uma festinha com a turma. Meu homeopata achou isso bastante curioso, o fato de para um brasileiro ser inconcebível passar seu aniversário sozinho em casa. Para um suíço, é normal. Nossa, morri de depressão só de pensar!

Uma amiga brasileira-suíça me disse que eu ia achar os suíços caipiras. Bom, os suíços como um todo vai ser difícil dizer, porque além de tudo eu não falo alemão e ainda conheço pouco do país, mas Genebra é meio caipira sim. Agora que estou aqui há algum tempo, percebo quando vou para uma cidade grande, como Lyon, que sou das poucas pessoas que obedecem o farol para pedestres e me impressiona ser abordada na rua por gente pedindo dinheiro ou vendendo flores. Quando fazia somente dois meses que estava aqui, fui passar uns dias em Londres e fiquei chocada com o tanto de gente dentro do metrô em Victoria. Digo para o meu marido que temos que visitar sempre cidades grandes, se não vamos perder o hábito e ficar parecendo aqueles gringos em São Paulo, que não sabem nem atravessar a rua.

Esses últimos parágrafos eram pra explicar outra razão pela qual estou triste. De insatisfação. Triste pelas pessoas que vivem de uma forma difícil aqui onde eu vivo confortável, e triste pela insatisfação de mesmo confortável estar tão longe daquilo que entendo por estar em casa. Adoro meu apartamento, gosto do bairro tranquilo onde moro, aproveito a aula de hidroginástica gratuita que a prefeitura oferece, converso com as colegas portuguesas na piscina, mas não tenho laços afetivos, a não ser pelo meu marido, o que certamente já é muita coisa, mas não substitui os amigos e o resto da família. Não é todo dia que me sinto assim, mas em vez de ver com negatividade esta sensação, prefiro entendê-la como lucidez.

Para muita gente seria loucura largar o Brasil e se instalar em um país distante, mesmo que com visto e emprego, mesmo que fosse para fazer um bom pé de meia. Para mim é uma descoberta, vim para cá para conhecer aquilo que morando no Brasil não seria possível, e para ter uma rotina mais tranquila também. Por baixo dessa aventura está a certeza de que o Brasil sempre estará lá como referência e como um lugar para onde eu posso voltar e retomar minha vida ‘normal’. Só que o Brasil não está lá parado, não tem como voltar para essa vida ‘normal’. Já ouvi várias histórias de gente que foi morar fora, depois voltou empolgado para ficar e finalmente não conseguiu se readaptar a seu país natal. No dia em que me dei conta de que quando voltar para São Paulo não vou morar no mesmo apartamento de antes, não vou ouvir os mesmos barulhos, ir na mesma padaria, fazer as mesmas caminhadas, foi um susto.

A saudade nos prega peças, a saudade que a gente sente é de uma coisa que não existe mais. Claro, as pessoas a gente pode encontrar novamente, e encontrar bons amigos depois de uma década é como encontrá-los depois de algumas horas. Porém a dinâmica das coisas é que muda. Os amigos que trabalhavam no mesmo prédio que eu e que eu via todos os dias podem nunca mais trabalhar no mesmo lugar… podem eles também mudar de cidade ou de país, as pessoas e as coisas não ficam esperando por nós. Isso é uma coisa subestimada por gente como eu, quando decide se mudar para outro continente. Onde eu estava com a cabeça?, me pergunto por um instante, pensando em quando me despedi de todo mundo, e daí eu lembro, eu estava com a cabeça no momento em que os veria novamente. Só colocando a cabeça lá mesmo para conseguir largar tantas pessoas queridas a dezenas de milhares de quilômetros! Do reencontro a cabeça ia para as viagens que eu ia poder fazer pela Europa, e voltava para as pessoas queridas, e era a certeza de que as pessoas queridas estariam sempre no mesmo lugar que me deixava tranquila o suficiente para partir.

Voltando então para os clandestinos que me fizeram sentir mal em primeiro lugar e ajudaram a trazer à tona essas constatações dolorosas, é quase irônico constatar que o colombiano desempregado e a escritora brasileira saiam de seus países, um buscando a sobrevivência, a outra, coisas e lugares novos, sem saber nem um nem outro no que essa mudança ia dar. Insatisfação generalizada – o clandestino está indignado com a miséria, eu deixo para trás minha cidade caótica e a política enxovalhada do meu país, os dois ficamos pasmados ao nos depararmos com uma cidade tão rica onde no entanto as pessoas parecem não fazer a menor ideia do que é aproveitar a vida. Eu tenho mais chance de ser feliz voltando a meu país, porque eu me desloco por opção, enquanto ele se desloca por necessidade, jogado para um lado e para o outro pelas correntes da economia pós moderna como aquele monte de coisas espedaçadas que chegam à praia no mar de ressaca. O que não quer dizer que eu não sinta por ele, alternando momentos de satisfação com a minha vida reflexiva, momentos de tristeza pela falta dos meus amigos, e instantes em que me concilio com autocompaixão essa situação de ser ao mesmo tempo uma pessoa sensível que procura ter coisas relevantes para dizer e uma criança mimada que tem o despeito de brincar manejando ideias e opiniões com a satisfação de quem brinca de Lego.