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Decifrando Twilight

Desculpem, vou fazer um post parecido com o anterior. Desta vez, vou atacar de psicanalista para falar de Crepúsculo. Aliás, como nunca vi os filmes nem li os livros, só conheço a história de uma sinopse, aqueles que leram podem achar que estou deixando alguns pontos de fora ou que não estou captando alguma nuance – não vou falar de episódio por episódio, só de algumas linhas gerais. Os psicanalistas talvez também discordem de várias interpretações. Fiquem à vontade para criticar, complementar, responder. Não pude resistir a escrever sobre essa história, porque não se fala de outra coisa e tem-se discutido muito sobre a mensagem que Crepúsculo passa para as crianças, principalmente as meninas. Além do mais, como alguns de vocês sabem, eu também escrevo para crianças, e por isso me interesso em saber o que elas estão vendo/lendo. Prometo que o próximo post vai ser sobre outro assunto, sem interpretações intelectuais da cultura pop.

Bom, é óbvio que a história é mais voltada para o público feminino mesmo. A protagonista é uma menina, que vai simbolicamente passar por vários conflitos e situações que a maioria das meninas passa. Não estou falando literalmente, ok? Claro que a maioria das meninas não vai enfrentar vampiros e lobisomens no dia a dia, embora muitas vezes as pessoas a nossa volta possam ser descritas como tais, ou seja, como seres que, apesar das aparências “normais”, se transformam em determinadas situações em outra coisa que nós não reconhecemos.

Acho que é bom citar um comentário que li em Fadas no Divã, um livro excelente de Mario e Diana Corso, que analisa desde contos de fadas tradicionais até Harry Potter e Calvin do ponto de vista da psicanálise (não, eles não falam de Crepúsculo, porque a edição data de 2006, antes desse fenômeno). Quando passam a analisar as histórias mais recentes voltadas para as crianças, inclusive os filmes da Disney, eles levantam o ponto da suposta falta de qualidade de tais histórias. Mario e Diana rejeitam a ideia de que Potter ou o Ursinho Pooh interessem as crianças somente pela enxurrada de merchandising disponível. Se as crianças gostam, eles afirmam, é porque a história tem algum significado para elas, aborda temas que lhe são caros. Podendo lidar com esses temas nas histórias vividas por seus personagens nos livros ou nos filmes, as crianças tem mais facilidade para se desenvolver e superar conflitos.

Voltando a Crepúsculo, então, não tenho dúvida de que existem muitas outras opções de qualidade literária e cinematográfica superiores a trama de Stephenie Meyer – que, aliás, passou por um processo parecido com JK Rowling no sentido de o filme ter sido rejeitado por um grande estúdio para depois fazer a felicidade da pequena companhia Summit Entertainement (no caso de JK, apesar de seu texto ser bastante bom a meu ver, ela teve seus originais rejeitados por várias editoras antes de fazer sucesso). Porém, problemas de estilo à parte, acredito que as crianças e adolescentes – e os adultos também, pois muitas mulheres são ávidas leitoras dos romances – todas elas escolhem Crepúsculo porque trata de temas que lhe são familiares e relevantes.

Tendo dito isso, vamos à trama em si. O começo é bem típico da narrativa clássica – a protagonista, Bella, tem que mudar para uma pequena cidade com seu pai porque sua mãe precisa ficar livre para viajar com seu segundo marido, que é atleta. Simbolicamente, esse começo já trata da separação entre mãe e filha, aquela história que vocês já conhecem, de quando a filha, ainda bebê, tem que reconhecer que existe um homem no meio do caminho entre ela e a mãe e que a mãe “pertence” a esse homem, e está disponível para ele – o que inevitavelmente quer dizer que está menos disponível para ela, filha. Essa separação é vivida por todas as meninas, quando crescem o suficiente para se tornarem mais independentes do peito da mãe e para reconhecer que dividem sua atenção com o pai. Por extensão, essa separação vai trazer a emancipação da filha e a sua própria iniciação sexual, quando for o momento, várias anos depois. No próprio Crepúsculo, não são vários anos que separam a mudança de Bella de seu casamento com Edward, mas acontecem tantos eventos relevantes no meio do caminho que podemos traçar um paralelo entre esse período do primeiro ao quarto livro com o período de amadurecimento de uma menina.

Então Bella, longe da mãe, que preferiu viajar com o seu jogador de beisebol a segurar sua filhinha no colo para sempre, encontra esse rapaz, Edward, que é irresistivelmente bonito e exerce uma atração muito forte sobre ela. Minha irmã mais nova me contou que, no primeiro filme, Edward não pode ficar perto de Bella porque exerce um poder forte demais sobre ela, como se fosse uma energia que tomasse conta dela. Nesse início, me parece que Edward e o pai de Bella são simbolicamente a mesma pessoa. Bella se afasta da mãe e pode enxergar o pai, com quem mora. Mas é preciso manter uma distância, porque o pai não pode ser seu, apesar de exercer todo esse fascínio sobre ela. Alguma semelhança com uma menina pequena, cujo primeiro interesse pelo sexo oposto vem na própria figura do pai? Parece fazer todo sentido.

No início do segundo livro, ocorre um incidente no aniversário de Bella, quando ela corta o dedo ao abrir um presente e um dos vampiros do clã de Edward não consegue se controlar ao ver o sangue e parte para cima dela. Edward consegue defender sua amada, mas decide que, diante desse risco que ela corre estando perto dele e de sua família, é melhor ele se afastar, pelo bem dela. Esse é o afastamento que o pai impõe à própria, filha, ainda muito cedo, quando deixa claro que seu desejo sexual está voltado a outra mulher. Esse momento marca a meu ver a separação entre o Edward-pai e o Edward-namorado. Quando ele voltar, não vai ser mais uma representação espelhada do pai, mas sim o “príncipe encantado”, o homem agora disponível, com quem Bella finalmente vai poder viver esse amor intenso.

Quando Edward vai embora, Bella sofre e perde todo o interesse pela vida. Esse estado depressivo em que ela passa o segundo livre-filme, ansiando por seu amado, provoca muitas críticas da parte de mães de meninas, que apontam o filme como sexista, com uma mensagem de que uma garota só é feliz quando seu homem está por perto. Compreendo essas críticas e acho que as mães que se incomodam com esse estupor de Bella à espera de Edward podem e devem conversar com suas filhas a respeito, e mostrar quantas coisas podem nos trazer alegrias mesmo quando não estamos acompanhadas daquele menino tão desejado. Mas essas próprias mães hão de convir comigo que, quando se é adolescente e se está apaixonada, parece não haver outra coisa no mundo além daquela pessoa, e deixamos de prestar atenção a tantas coisas a nossa volta. Harry Potter, concorrente de Crepúsculo,  também trata dessa paixão adolescente em seu filme mais recente, Harry Potter e o Príncipe Mestiço. Embora na história de Potter o tom seja mais bem humorado, a súbita paixão de Ronnie por Romilta Vane ilustra bem o quanto ficamos cegos de desejo por uma figura que, muitas vezes, nem sabemos ao certo quem é (Ronnie se apaixona por Romilta, sem nunca ter sido apresentado a ela, ao comer bombons que continham uma poção de amor).

No entanto, Bella vai se aproximar de outro homem na ausência de Edward. Ela começa a estreitar seu relacionamento com o amigo de infância Jacob, e vai daí em diante ficar dividida entre os dois meninos por algum tempo. Esse interesse de Bella por Jacob é importante porque marca o momento em que ela vai olhar para outro homem que não o pai. Somente depois de ter reconhecido Jacob como um possível parceiro é que ela vai poder se unir a um Edward que já não é mais o pai. Já li sobre a cena em que Jacob tira a camisa e mostra seu tórax musculoso e sobre a tensão sexual que surge então. Mais uma vez, Bella vai descobrir um segredo do universo masculino – quando ela descobre que Jacob é lobisomem, e tem portanto poderes e características que ela nunca teria suspeitado (principalmente nunca antes de vê-lo sem camisa), é como se a adolescente descobrisse que aquele menino que esteve ao lado dela desde a infância tem “poderes” sexuais – é o momento em que ambos se tornam sexualmente maduros e reconhecem isso um no outro.

Edward acaba voltando e por algum tempo Bella fica indecisa, até finalmente concordar em se casar com ele. Eles se casam e descobrem durante a lua de mel que Bella está grávida. Aqui me parece que a autora Stephenie Meyer, que é de orientação bastante conservadora, está chamando a atenção para os riscos de um envolvimento sexual. Não há sexo sem consequência, e no caso de Bella a consequência é que ela quase morre ao dar à luz o bebê meio humano, meio vampiro, dela e de Edward. Talvez aqui o fantasma do pai esteja voltando para alertar a menina que o incesto é punível com a morte. Ou talvez possamos ver como um ritual de passagem em que o início da vida sexual pressupõe uma espécie de morte – aquela existência inocente de Bella vai ficar para trás – ela é salva por Edward que a transforma em vampira. Acho muito significativo o fato de que a mordida do vampiro, que tem esse apelo erótico tão forte (muitos críticos de Crepúsculo acham essa trama água com açúcar de sexo após o casamento uma afronta à reputação libidinosa dos vampiros ao longo da história), venha somente depois do casamento e depois do nascimento do bebê. Sem dúvida essa ordem ilustra o que seriam as prioridades para uma autora conservadora: o casamento, depois, a procriação, e só então o sexo recreativo. Para poder finalmente fazer parte do mundo de seu amado e receber a tal mordida, Bella precisa passar por uma gravidez complicada e um parto de risco. Há um preço a pagar pelo prazer sexual em Crepúsculo, e ele é bastante alto. Andei lendo por aí que a história de Bella e Edward fornece às crianças e adolescentes uma perspectiva segura da sexualidade. Segura, só se for do ponto de vista dos pais preocupados com uma iniciação sexual precoce (aliás, muito válida). Para as crianças e adolescentes apaixonados por Bella e Edward, todo o drama e os perigos dessa passagem na vida estão bem ilustrados.