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Keira genial

Tem algumas celebridades que eu gostaria de entrevistar, a Keira Knightley é uma delas. Que mulher poder! Se alguma atriz do mainstream tem algo a dizer sobre a condição da mulher nos últimos 200 anos, só pode ser ela. Poderia me decepcionar, talvez, conversando com ela, mas pelo curriculum, ela poderia ter muita coisa a dizer: Cecília em Desejo e Reparação, Elizabeth em Orgulho e Preconceito, Georgiana em A Duquesa, e até a Elisabeth de Piratas do Caribe, que brinca com as heroinas de antigamente – todas mulheres decididas, que não se adequariam ao que era esperado delas. Além de outras mulheres de filmes que eu não vi, como a mocinha de Bend it like Beckham, um dos seus primeiros trabalhos, e a Guinevère de Rei Arthur.

Keira transmite uma intensidade nas suas atuações que não se vê com facilidade por aí. Ela faz mais do que ser convincente, ela dá vida mesmo ao personagem. E acho que escolhe muito bem o que interpreta. A Elisabeth Swann de Piratas do Caribe é uma piada com as mocinhas de filme do gênero. Ela vai para a briga como os outros piratas e tem a alma errante própria a eles – lembrem-se, o filme começa com ela cantando A pirate’s life for me, quando criança. Elisabeth é um contra-exemplo do modelo que a rainha Vitória (que presumivelmente era quem reinava na época em que se passa o filme) acharia correto. Vitória, apesar de ser rainha de fato (herdara a coroa de seu pai, seu marido era só príncipe mesmo), acrediatava que as mulheres não deveriam ter as mesmas ocupações nem os mesmos direitos que os homens.  Ela abominava os movimentos feministas que começavam a engatinhar na Inglaterra. Imagino que estou fazendo uma leitura muito além do que os roteiristas do filme imaginaram, mas Elisabeth vai se deparar com as dificuldades de assumir um papel diferente do previsto. No início do segundo filme, por exemplo, ela tem a cerimônia de seu casamento interrompida  – ter vida de pirata quer dizer que é impossível aspirar ao casamento e às demais convenções. Ela ainda solta algumas piadas em torno de temas prosaicos que no entanto não deixam de representar aspectos da repressão às mulheres como “Você quer dor? Tente usar um espartilho!”

Depois, em Orgulho e Preconceito, Keira encarna novamente uma Elisabeth: Elisabeth Bennet, a heroína preferida de Jane Austen. Austen costumava retratar a vida das famílias que tinham pouca forntuna mas ainda faziam parte da “sociedade” na Inglaterra na virada do século XVIII para o XIX. O casamento era a instituição central nesse grupo social, era um dever mesmo, pois era através dele que uma mulher ou um homem que não dispusesse de meios suficientes para se manter iria garantir seu futuro. A mãe de Elisabeth não pensa em outra coisa que não casar suas cinco filhas – Elisabeth é a segunda mais velha. Ela não é de se contentar com pouco, no entanto, e quer um casamento pautado por amor. Por isso recusa a proposta de seu primo pedante e afetado, que se casa então com a vizinha, sua melhor amiga. Que ninguém se engane, Elisabeth Bennet tem total consciência de que não é algo banal recusar uma oferta de casamento, e que qualquer mulher prudente na situação econômica dela deveria aceitar a primeira que lhe fosse feita, pois dificilmente teria a sorte de ser pedida uma segunda vez. E ela, sendo uma mulher segura de si, ainda vai recusar mais outra oferta, de um rapaz bastante rico e atraente (o Mr Darcy de quem já falei em outro post)  que ela acredita ser mau caráter – só para descobrir mais adiante que estava enganada. A história ainda envolve a fuga de uma das irmãs Bennet com um militar, e o desespero da família para “regularizar” a situação do jovem casal – sem ser selada por um casamento, essa união significaria a desgraça de toda a família e arruinaria qualquer possibilidade de encontrar noivos para as outras irmãs. Quem vai conseguir arranjar esse casamento “de urgência” é justamente Mr Darcy, que tem todo interesse em preservar o pouco de ranque que os Bennet possuem para poder se casar com Elisabeth. Claro, ele também agiu por amor, mas é importante entender que naquela época era importantíssimo ter um mínimo de status para poder se casar com alguém como Darcy e os Bennet já estavam no patamar mínimo exigido, se não abaixo dele, por assim dizer. No final dá tudo certo, mas acho que Elisabeth só consegue levar sua situação para um final feliz porque confia muito em si mesma, sabe o que quer, e não vai se contentar com o mínimo – embora se conforme às convenções de decoro da época, vai exigir tudo aquilo que poderia em termos de liberdade de ação. E Keira transmite a vivacidade de Elisabeth, sua perspicácia, sua segurança de si e a mortificação que ela sente quando se dá conta de seus próprios preconceitos.

Já Georgiana, de A Duquesa, não tem a mesma sorte. Apesar de tentar se impor e defender direitos iguais aos de seu marido – maravilhosamente interpretado por Ralph Fiennes – Georgiana não teve a sorte de estar rodeada por pessoas condescendentes com o desejo de liberdade de uma mulher. Casada muito jovem com o Duque de Devonshire, Georgiana decepciona o marido por conceber somente duas filhas nos primeiros anos de casamento, em vez do menino tão esperado para sucedê-lo do ducado. Os cuidados da duquesa com suas filhas e com a filha ilegítima do duque que ela cria como se fosse sua dão uma sensação do próprio orgulho feminino – Keira transmite a impressão de que Gerogiana está realmente se divertindo com a sua pequena trupe feminina, apesar do desgosto do marido. Ela decide abrigar em sua casa a amiga Bess que não tem onde morar depois de se separar do marido. Algum tempo depois, no entanto, descobre que sua amiga está tendo um caso com o duque. Diante disso, Georgiana decide perseguir sua antiga paixão, Charles Grey, e ajudá-lo em sua carreira política. Ela chega a propor ao duque sua bênção sobre a união dele com Bess em troca da aceitação de seus sentimentos por Grey, o que o deixa furioso. Depois de finalmente dar à luz um filho homem, Georgiana vai para Bath, onde vive durante algum tempo um idílio com Grey, até o duque descobrir o casal e chantagear Georgiana – se ela não voltar imediatamente e se afastar de Grey, nunca mais verá seus filhos novamente e ele ainda arruinará a carreira de seu amante. A duquesa se resigna, mas ainda tem um último fruto da rebeldia – está esperando um bebê de Charles Grey. O duque a obriga a abrir mão também dessa criança que, tão logo nasce, é entregue à família Grey e criada como sobrinha do jovem político. Quando assisti esse filme, o que mais me chocou foi Georgiana ter que aceitar o comportamento de seu marido e continuar vivendo com ele. Eu pensava comigo: por que ela não vai embora? Imaginem: se hoje ainda há mulheres que por medo de represálias ou insegurança hesitam em abandonar maridos que são violentos, é fácil pensar o quanto seria difícil fazer isso para uma duquesa no século XVIII. Simplesmente uma mulher não podia arrumar um emprego e fazer o que bem entendesse da vida. Menos ainda uma duquesa, que tinha como primeira obrigação gerar um menino herdeiro. Ficamos sabendo pelos créditos finais que a duquesa fez frequentes visitas a sua filha ilegítima até o fim de sua vida. É de partir o coração, e o pior é que aconteceu de verdade. Infelizmente o que a sociedade reservava para uma mulher rebelde não era tão promissor na vida real quanto na fantasia.

Não que sempre tenham sorte as personagens de ficção interpretadas por Keira. No caso de Desejo e Reparação, por exemplo, sua irmã Briony bem que tenta, escrevendo um romance, devolver a Cecília (Knightley), a vida que lhe foi roubada por um capricho de criança, mas a realidade é bem mais grave do que a ficção. No pré-segunda guerra, Cecília e Briony são irmãs em uma família rica da Inglaterra. Briony, sem entender a tensão sexual entre Cecília e o Robbie, o filho da governanta, acusa o rapaz de um crime que ele não cometeu. Ele acaba sendo condenado e indo preso. Cecília, a única que acredita na inocência de Robbie, rompe com a família e vai trabalhar como enfermeira quando começa a guerra. Robbie é solto na condição de se juntar ao exército. O encontro entre os dois antes de ele partir para o front é comovente – nunca vi uma situação em que a expressão “juventude roubada” se aplicasse de forma mais certeira. Briony, que se torna romancista, escreve um livro em que conta essa história, tentando dar a Cecília e Robbie o final feliz que não tiveram na vida real. Mais uma interpretação maravilhosa de Keira de uma mulher que está em desacordo com sua família, ama alguem que não lhe é permitido, e vai lidar de cabeça erguida com todos os obstáculos que aparecerem. Todas essas mulheres servem de inspiração para nós, e de lembrete também, das duras penas impingidas às mulheres para conquistar o status que possuem hoje – que ainda está longe do ideal, como demonstram exemplos que temos todos os dias. Se você é mulher e vive no Brasil, por exemplo, com certeza deve ouvir com mais ou menos frequência assovios e cantadas ao andar na rua, como se fosse um pedaço de carne. E mesmo aquelas que vivem em países supostamente desenvolvidos e mais igualitários recebem todo mês um lembrete de que são “menos” do que seus colegas do sexo masculino ao receberem seus salários. Mas esse é tema para um outro post.

Be my Darcy

Lá estou eu novamente apaixonada por um personagem de livro. Tá bom, desta vez pelo menos não é o príncipe Michkin, que partiu meu coração nas páginas finais do Idiota. Desta vez também não é o Severus Snape, meu ever favorite personagem do Harry Potter, a ponto de minha irmã vir me dizer para, pelo amor de Deus, não colocar um nome desses no meu filho, quando eu tiver um. Ai, desta vez é o o Fitzwilliam Darcy caladão de Orgulho e Preconceito. E que clichê, pois descobri fuçando na internet que ele já foi copiado, citado e parodiado por inúmeros livros, filmes, músicas, dos mais variados gostos. Tem uma autora que chegou ao absurdo de caracterizar Darcy e Elizabeth como caçadores de vampiros, se tem cabimento uma coisa dessas… acho que nem aos 15 anos eu seria capaz de fazer uma distorção tão bizarra do livro da Jane Austen.

Não foi nem um pouco difícil, em meio ao frio na barriga que Mr Darcy me deu ao longo das páginas do livro, perceber que o Mark Darcy da Bridget Jones é uma paródia do Darcy original. O jeito contido do Colin Firth na adaptação de Bridget Jones para o cinema é a melhor transpoisção do supostamente orgulhoso Fitzwilliam Darcy para os dias de hoje. Mas a Bridget me parece mais insegura que Elizabeth Bennet, o que dá brecha para entrarmos naquela longa batalha sobre o possível teor machista do diário da Bridget Jones, na qual não vou entrar aqui. Mas que é delicioso ver o Darcy chamando Hugh Grant para a briga, isso é, vai, não tem como negar. Desculpem, leitores que não se interessam pelo sexo masculino, vocês devem ficar entediados com este post.

Pode não ser novidade para vocês, mas para mim foi, que o Colin Firth aceitou o papel do Mark Darcy para tentar se livrar da imagem de Fitzwilliam Darcy, que ele havia interpretado em uma adaptação de Orgulho e Preconceito da BBC em 1995, e acabou sendo o papel que o levou para o mainstream. Uma tal ‘cena da lagoa’ (que não existia no livro e foi acrescentada ao script da BBC) em que Darcy tira (parte) da roupa – o suficiente para o deixar indecoroso aos olhos da Inglaterra do início do século XIX – para nadar em uma lagoa e em seguida encontra Elizabeth, no melhor estilo ‘garoto camisa e calça molhada’, arranca até hoje suspiros no You Tube (http://www.youtube.com/watch?v=hasKmDr1yrA)

Colin Firth, que é um dos meus galãs favoritos do cinema (podem rir, eu não ligo), teve tanta dificuldade em se livrar da imagem de Darcy que em um outro filme o personagem que ele interpretava acidentalmente matava um cachorro chamado Mr Darcy. Só podia ser inglês, para ter esse senso de humor. Adorei.

Antes que este vire um post sobre o Colin Firth, continuemos. Vou avisando a quem não leu o livro ou não viu o filme, o post contem spoilers.

Fiquei dialogando com Miss Austen enquanto lia o livro, querendo saber o motivo de ela ter feito algumas escolhas. Primeiro de tudo, por que Elizabeth só se dá conta de que está apaixonada por Darcy nos capítulos finais. Ela não se daria o trabalho de incomodá-lo com suas provocações se ele não fosse interessante para ela. Ela poderia simplesmente ignorá-lo. Para mim, está claro que ele causou o maior impacto nela desde o primeiro encontro, embora ela tenha ficado ofendida ao ouví-lo dizer que ela era ‘tolerável, mas não a ponto de tentá-lo (a dançar)’. Quando ela pensava que estava ‘dando uma lição’ no rapaz orgulhoso, estava o tempo todo flertando com ele. Será que para uma leitora do século XIX isso não estava claro? Ou estou de novo atacando de psicóloga? Não tem importância, boa parte do gostinho do livro está em perceber que as coisas já mudaram e só Elizabeth ainda não deu o braço a torcer.

Segundo, Jane Austen deixa de especificar os diálogos justamente nos momentos que são mais cruciais, como quando Elizabeth finalmente aceita a proposta de Darcy. Isso poderia ser decoro da autora, que devia ruborizar só de pensar em escrever tais frases – foi o que pensei inicialmente. Depois, porém, assistindo às duas principais adaptações (1995 e 2005), fiquei com a impressão de que a omissão de Austen era para deixar a imaginação de cada um preencher o espaço. Teria sido delicioso ler mais alguns diálogos com a força da primeira proposta de Darcy, porém, tenho que dar mérito a Miss Austen por aquilo que ela deixou a nosso dispor.

Se eu tivesse lido Jane Austen quando eu era adolescente, provavelmente teria ficado indignada de todo o romance se passar sem nem um beijinho, nem sequer na bochecha. Com a idade que eu tenho hoje, fiquei agradecida de ver que tanto a adaptação da BBC quando a mais recente para o cinema com a Keira Knightley e o Matthew Macfayden são bem contidas no contato físico entre os personagens, fazendo jus aos costumes da época. Ia ficar muito pastelão o Darcy tascar um beijo na Elizabeth ao pedi-la em casamento. Muito obrigada, roteiristas e diretores com bom senso! O filme ainda toma umas liberdades, como a aproximação entre os dois personagens na cena em que estão discutindo – a melhor cena do filme, a meu ver (http://www.youtube.com/watch?v=1R-Zg5es7mg) ou a expressão dos sentimentos de Elizabeth quando tudo finalmente dá certo (http://www.youtube.com/watch?v=vtIgc3WAsSk). A interpretação de Macfayden, aliás, mesclando tão bem insegurança, paixão e uma pitadinha de altivez (ou seria timidez?) me fez incluí-lo na minha lista de ‘talentos para acompanhar’.

O que eu acho especialmente interessante é como, mesmo com toda essa contenção física, essas cenas tem um apelo enorme hoje. Não sou só eu que fico suspirando, é só dar uma lida nos comentários do You Tube para ver que muita gente acha o Darcy super, digamos, atraente. Impossível não pensar que perdemos uma boa dose de charme com a simplificação dos costumes. E mais ainda depois de adultos, porque quando se é adolescente, as incertezas fazem cada detalhezinho de uma conversa, o modo de se cumprimentar, um olhar, terem a maior importância na interpretação das intenções do nosso objeto de desejo. Depois que se é adulto, tudo fica mais simples, é muito mais fácil se aproximar e dizer na cara.

Não é para ficar saudosista que eu quis escrever, no entanto. Se a corte (ou flerte, como chamaríamos hoje) mudou, também mudou para melhor. Evidente que no século XIX ainda era muito comum as mulheres serem forçadas a se casarem contra a vontade, e muitas tinham que se casar simplesmente para ter como se manter. O caso da Elizabeth e do Darcy é totalmente ficcional, quantos desses vocês acreditam que existiram de verdade? Então, podemos suspirar pelo Darcy sem saudosismo, simplesmente considerando que é uma história como Harry Potter ou O Senhor dos Aneis. Tudo ficção.

PS: logo mais, um post só para falar da Keira Knightley, que já interpretou tantos personagens de época divinamente. E em tempo: meu Mr Darcy na vida real não deixa nada a dever para o da Jane Austen (e não importa o que eu esteja lendo no momento, sempre é capaz de me arrancar suspiros)!