Arquivo da tag: literatura contemporânea

Autoanálise literária (mais pra mim que pra vocês…)

Como sobreviver a esses dias que passam com a gente se arrastando? Vários deles seguidos, às vezes… Depois de espernear, chorar, dormir, escutar música, mudar de música mil vezes, nenhum cantor agrada, tentar ler, limpar o banheiro, arrancar as cutículas, tentar escrever, se sentir a Clarice Lispector, se deprimir mais ainda de não ser a Clarice Lispector, e nem ter uma barata no armário com quem conversar, você se sente diferente. É como o efeito do maremoto que traz do fundo mais comida para os peixes de superfície. Claro que isso é se você não se afogar nas ondas enormes.

O jeito seria tomar o conselho do Chance – um dos últimos personagens do Peter Sellers, e que está muito mais à altura do talento dele do que todas as inúmeras continuações da Pantera Cor de Rosa. O filme se chama Being There (Muito Além do Jardim, em português), e mostra um homem que passou a vida toda cuidando do jardim da casa de um milionário falido, sem nunca ter visto o mundo exterior. Quando o velho morre, Chance, the gardener, que é como ele se apresenta, é obrigado a sair pelas ruas de Washington sem ter para onde ir e sem a menor ideia do que é o mundo ‘além do jardim’. A defasagem de Chance em relação às pessoas “normais” é percebida por elas como serenidade e sabedoria da parte dele. Assim, ele vai dizer ao presidente norte-americano, em plena recessão do início dos anos 80, que “depois do inverno, virá a primavera” e que “há espaço para todos os tipos de árvores no jardim”, e vai parar em rede nacional para supostamente discutir política ecônomica. Cada um entende o que ele diz como bem lhe convem, ele está o tempo todo falando simplesmente de plantas.

O que eu quero ouvir do Chance então é que todos os tipos de árvore são todos os tipos de autor e de texto. Já tive uma conversa seríssima com um amigo sobre a impossibilidade de escrever hoje uma obra da envergadura de um romântico, por exemplo. Não só por conta do momento histórico, que é outro, mas porque estamos presos ao tanto de informação a que temos acesso. Com tanto input, fica difícil ter um output de qualidade (até porque é difícil arrumar tempo para fazer as coisas saírem). Não vou dizer que nunca mais vai existir um autor como Rousseau ou Schelling – aliás, sempre vão existir críticos de plantão para desmontar qualquer obra, além do gosto pessoal, que faz com que algumas pessoas achem impensável sentar para ler um livro de determinado autor, não importa o quanto ele seja reverenciado e ungido por séculos de fama. O que acho que vale a pena reter da conversa com meu amigo e do discurso do Chance, the gardener é que a nossa maneira de produzir e consumir cultura é fragmentada. Não dá nem para saber o que ler, das boas coisas sendo produzidas, porque há tantas – você pode querer conhecer um romacista indiano, russo ou brasileiro, e todos estarão disponíveis, toda essa imensidão de discursos que se multiplicam todo dia.

Não é uma coisa ruim que existam tantos autores em tantos lugares que podem ser lidos por tanta gente. Nem é uma coisa boa - é um fato da pós modernidade. Claro que é mais fácil hoje para um romancista mediano publicar seu livro do que antigamente, porque livro virou mercadoria de grande escala. Mas sou capaz de apostar que também há muito mais romancistas bons publicando livros hoje do que no século XVIII.

Mais uma coisa: ler uma obra prima é delicioso, mas quantas coisas não chegaram para nós por meio de textos não tão bons? Qualquer um que aprecie história e leia livros sobre esse assunto vai saber o quanto são importantes cartas, diários, romances chinfrins e outras categorias literárias para compreender o espírito de uma época, e até mesmo fatos importantes dela.

Não dá mais para escrever Os Lusíadas? O que é que dá para escrever então? A Gertrude Stein já tinha mostrado a dificuldade em fazer algo que não tenha sido feito, no sentido em que contar uma história vai ser sempre a mesma coisa, tanto faz o conteúdo da história. Essa mulher entendeu profundamente o que estava rolando com a literatura e fez experimentos, foi super importante para a literatura como um todo mas hoje tem gente que entende bem do assunto (eu não tenho a pretensão, só li dois livros dela) e considera os seus textos não tão bons – ela teria valido mais pelo que pôs em questão e pela sala de estar onde reunia todas as pessoas interessantes de Paris do que por aquilo que deixou escrito.

Se não dá para escrever que nem Camões, dá para fazer maravilhas como Everything is Illuminated, do Jonathan Safran Foer, que foi o livro mais lindo que já li de um autor que esteja vivo (que aliás é pouco mais velho que eu). Dá para fazer uma ficção envolvente que ao mesmo tempo observa de forma muito lúcida nossos dias, como Carlos Eduardo de Magalhães faz em Pitanga, tornando a elite paulistana muito mais interessante do que ela efetivamente é com seus personagens bem desenhados. E enquanto não dá para imprimir as minhas próprias histórias, dá para falar aqui sobre as coisas que eu gosto de falar com meus amigos, e contar pequenas historinhas. O blog responde totalmente à minha necessidade de tagarelar, sem no entanto sobrecarregar nenhuma pessoa em especial, está aí pra quem quiser ler e pronto. Se eu for boa de papo, quem sabe não consigo alguns leitores, e não dou minha contribuição para a profusão de coisas que as pessoas leem, discutem e depois esquecem?