Dirigido por Jim Henson, o mesmo que foi responsável pelo sucesso dos Muppets, e produzido por George Lucas, Labirinto foi um filme-chave para as crianças dos anos 80. David Bowie é o grande vilão Jareth, rei dos duendes. Jennifer Connelly é Sarah, uma adolescente que tem que ficar de baby sitter de seu meio irmão quando o pai e a madrasta saem uma noite. Ela se irrita com o bebê chorão e declama versos de uma peça que está lendo, que convocam os duendes para levar o bebê. Os duendes de fato aparecem e levam o menino embora, e Sarah terá até a meia-noite para chegar no palácio de Jareth e recuperar a criança, senão, ele será transformado em duende.
O Brasil bebeu na fonte, claro, e em 1988 tivemos nossa versão tupiniquim, Super Xuxa Contra o Baixo Astral, desprovida de todas as sutilezas da grande fábula de Hernderson. As próprias adaptações feitas na história já dizem muito: em vez de ser seu irmão que é capturado, é o cachorro de Xuxa que é levado pelos duendes, liderados por Guilherme Karan que nem fazendo bem o papel de Baixo Astral conseguiu salvar o filme. A relação ambígua de conflito e sedução entre a mocinha e o vilão está mantida e, sabendo do passado então recente de Xuxa em filmes de outro genêro os gemidos dela pelo seu Xuxo ficam uma coisa quase de mau gosto para o espectador adulto. Sem contar que a atuação da Xuxa já é por si só uma coisa sofrível, a despeito do sucesso de bilheteria e do Kikito que ela tenha recebido e agradecido com toques de esnobação em 2009.
Voltemos, porém, ao Labirinto, lançado em 1986. Ícone de uma geração, David Bowie aparece em todo o esplendor daquela cabeleira loira armada, com muita maquiagem nos olhos e roupas de couro. Em meio a toda a lixeira que se produziu nos anos 80 – como aliás em todas as décadas da cultura de massa antes e depois da década perdida – estávamos em boa companhia. Quem não ia ficar feliz de ver seus filhos assistindo um filme em que o vilão é David Bowie em vez de ver o dinossauro roxo do Barney (ou a Xuxa)?
Para chegar ao palácio de Jareth, Sarah terá que passar por um labirinto, onde as paredes mudam de lugar e há enigmas para resolver. Em um dado momento, Jareth tenta enfeitiçar Sarah com a ilusão de um baile em que ela é o centro das atenções e eles dançam As The World Falls Down. Sarah percebe que está sendo enfeitiçada vê um relógio e se lembra de que precisa salvar seu irmão, mas para escapar do baile precisa quebrar uma parede de espelho. O filme é cheio de momentos assim, que são alegorias de temas importantes para os adolescentes e mesmo para as crianças. Quando ela usa uma cadeira para quebrar a parede espelhada desse mundo mágico onde existe a possibilidade de se deixar seduzir por Jareth, é como se ela percebesse que há coisas importantes a serem feitas, não é possível morar nos devaneios agradáveis. Agradáveis, aliás, somente em certa medida, porque existe algo de sombrio nesse baile de máscaras onde as pessoas se voltam todas para ela e vão fechando um círculo em torno dela e de Jareth. O preço de salvar aquilo que amamos ou conquistar o que queremos muitas vezes inclui estilhaçar a imagem que criamos de nós mesmos, perder o baile e o parceiro e o vestido de princesa bufante (que diga-se de passagem é igualzinho ao vestido de baile que uma de minhas tias usava nessa mesma época, com muito gel no cabelo!)
Em outra cena emblemática, Sarah vai parar em uma espécie de depósito de lixo, um lugar cheio de tranqueiras. Ali encontra uma “carroceira”, que carrega todo tipo de objeto consigo. Sarah diz a ela que estava procurando uma coisa, mas não conseguia se lembrar do que. A criatura lhe mostra então uma réplica de seu quarto, com todos os seus bichinhos de pelúcia, incluindo o urso Lancelot, do qual Sarah tinha muitos ciúmes (no início do filme, ela se irrita com o irmãozinho ao encontrar Lancelot no quarto dele). Por um instante, Sarah está satisfeita de estar de volta a seu quarto (embora ele esteja no meio do tal lixão) com seus objetos pessoais, mas então percebe que não é exatamente isso que estava procurando. Novamente ela tem que ir buscar fora de seu refúgio aquilo que é importante. Aquele quarto em meio ao lixão não é seu quarto verdadeiro, somente uma imagem dele. Decidir ficar ali seria se isolar do mundo – em volta só há objetos abandonados – essa não é uma opção possível para quem já saiu do quarto uma vez.
O embate final entre Sarah e Jareth acontece no palácio dele, inspirado nos desenhos de Escher – escadas que não levam a lugar nenhum, andares que ficam de ponta-cabeça. As ilusões criadas por Escher no papel já são fascinantes para as crianças e os adultos, e a transposição para o cinema deu certo, manteve o climax do filme à altura do labirinto. Jareth tenta convencer Sarah a ficar lá com ele e desistir de levar seu irmão de volta, mas a proposta, apesar de tentadora (é o David Bowie!), não é aceita, e ela quebra o encanto ao recitar as palavras finais do livro que estava lendo no início do filme quando fez seu irmão desaparecer – “você não tem poder algum sobre mim!” Ao dizer isso, Sarah e seu irmão aparecem de volta em casa. É o momento em que Sarah conquista de vez sua independência, o poder sobre si mesma. E então seu irmão não precisa mais ser um problema do tamanho que era no início, já que ela deixou para trás o que ela própria ainda tinha de bebê impotente.
Labirinto foi um fracasso de bilheteria, mas ganhou ao longo dos anos o status de filme cult. Olhando com o recuo de duas décadas, tanto quanto minha afeição permite recuar, mantenho que é um bom filme – apesar de seus efeitos especiais terem ficado inevitavelmente obsoletos. Se não pela simbólica passagem para a vida adulta, vale assistí-lo se você gosta de David Bowie, ou dos outros trabalhos de Jim Henson (esse foi seu último filme antes da morte por pneumonia em 1990).