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All that jazz

Woody Allen and his New Orleans Jazz Band vieram a Genebra. No dia em que comprei o ingresso, mais de um mês atrás, não conseguia nem pegar no sono de pensar que ia ficar cara a cara com o gênio. Não tem nenhum filme dele que eu não tenha gostado de ver, mesmo os que são mais fraquinhos ainda são interessantes, e tem aqueles inesquecíveis que geraram piadas internas eternas entre meu marido e eu. Ontem, chegou o grande dia.

O show foi na Arena, que seria o equivalente de um Credicard Hall daqui, mas mais parecido com um Ginásio do Ibirapuera do que com o Credicard Hall, porque parece uma grande arquibancada de ginásio mais que uma casa de shows. A Arena é enorme para os padrões de Genebra, e nós que havíamos comprado um ingresso barato demos a sorte de poder sentar mais perto do palco porque eles não haviam vendido todos os lugares e reacomodaram todo mundo nos melhores disponíveis. O palco era pequenininho, lá embaixo em meio à pista VIP de cadeiras removíveis.

Achei um pouco estranho um show de jazz num lugar que se parece com um ginásio, pois jazz tem aquele gostinho intimista, pra ouvir sentado à uma mesa de bar. Mas eu estava tão empolgada de ver o Woody Allen, e de ouvir jazz ao vivo pela primeira vez desde que me mudei para cá, que resolvi abstrair esse detalhe.

Na porta do show umas mocinhas estavam distribuindo amostras grátis de batata chips, eu logo me perguntei de quem tinha sido a brilhante ideia de espalhar saquinhos barulhentos por toda a plateia de um show de jazz. Provavelmente foi da mesma pessoa que resolveu organizar um show de jazz em um ginásio. Para nossa sorte, só um dos nossos vizinhos resolveu comer suas batatas, e logo no começo. Quando ouvi o barulho do pacote abrindo, lembrei da vez em que um amigo deu um esculacho em uma pessoa que abriu vagarosamente um Sonho de Valsa durante uma ópera no Municipal de São Paulo (achando que abrir devagar ia diminuir o incômodo, enquanto produziu somente aquela tortura de ouvir o barulho por mais tempo). O que me consolou foi que a amostra grátis era bem muquirana, então o sofrimento não podia durar muito.

Os músicos entraram no palco um a um já tocando uma lânguida Only You. Woody entrou por último com seu clarinete, e foi somente quando ele apareceu que os aplausos vieram. Estranhei um pouco essa plateia, achei meio desrespeitoso com os outros músicos, mas ela teve chance de se redimir depois aplaudindo os solos dos excelentes trombone e trompete e do sensacional líder da banda e banjo, que cantava aqui e ali com uma voz deliciosa de jazz. O pianista também teve seus momentos de glória, o baixista fez um único solo e para o baterista sobrou ficar de acompanhante mesmo, last but not least. Aliás, as músicas sempre continham solos dos instrumentos de frente, e daí a plateia achou por bem aplaudir todos os solos, tal e qual criancinhas repetindo bê-a-bá na escola, entregavam suas palmas solo após solo, de modo educado, mas sem muita emoção ou espontaneidade. Ou eu que sou severa demais nesses genevois, coitados, depois que o Calvino proibiu música e dança e obrigou as crianças a estudarem oito horas por dia seis dias por semana dá para entender que o trauma demore tanto para sair.

Woody Allen pegou o microfone após duas músicas e agradeceu a nossa presença (não a minha evidentemente, mas a da plateia como um todo) e com aquele jeito charmosamente desajeitado disse que eles tocam pelo próprio prazer e que ficam agradavelmente surpresos pelo fato de que alguém se interesse por assistir. “Sit back, relax and have a good time”, ele concluiu. Eu estava tão entusiasmada que não dava nem para me recostar no assento, seguia cada música como se estivesse assistindo uma final de vôlei do Brasil nas Olimpíadas (não vou dizer um jogo da Copa porque nesses eu mal consigo ficar sentada e não paro de gesticular).

Estava procurando nos jornais de Genebra o nome dos demais integrantes da banda para poder dizer a vocês (não levei caderninho para anotar porque estava lá para assistir, não para cobrir) mas, por incrível que pareça, são 9h e não tem NADA sobre o show em nenhum dos principais jornais. Nem no mais respeitável, nem no mais fácil de ler, nem no equivalente ao Notícias Populares, nem no 20 Minutos! Estranhíssimo, ainda mais considerando que não é todo dia que acontece um show desse tipo por aqui. Acho que eles não costumam fazer cobertura de eventos, somente dão o show da seção de serviços e pronto. Para mim ficou parecendo um buraco no jornal. Em São Paulo a primeira coisa que eu fazia em dia seguinte de show era abrir o Estadão para ler o Jotabê Medeiros e saber como havia sido, se eu não tivesse ido, ou ver se concordava com ele, se tivesse.

Os caras da mesa de luz levaram algum tempo para perceber que alguns spots estava indo bem na cara de quem sentava nas cadeiras mais altas, mas acabaram resolvendo o problema. Isso, somado ao fato de distribuirem batatinhas e de organizar o show na Arena me fez pensar que fazer um curso de produção cultural não era algo tão vão quanto eu pensava na época em que eu mesma trabalhava nos bastidores de palcos e me dei o trabalho de assistir aulas sobre o assunto. Tem gente sem noção nesse negócio, e essas gafes mais ou menos importantes na produção do show do Woody Allen me deixaram meio com vergonha alheia. Um bom produtor (não olhem para mim, saí do business quando ainda era estagiária) sabe que show mal produzido é como uma falta de educação com quem está se apresentando. Pensei comigo: “perdoa-os, Woody, eles não sabem o que fazem. Como você há bem de saber, Freud explica”.

Mas nem os pecadinhos da produção conseguiram atrapalhar o show. Lá pelas tantas, o vocalista-banjo começa “By the light, by the light, by the light of the silvery moon…” e nós demos um pulo na cadeira, meu marido e eu. Para quem assistiu a versão original de Os Produtores, do Mel Brooks, essa é a música que Zero Mostel e Gene Wilder cantam no bar acompanhados por um bêbado enquanto comemoram o tão esperado fracasso da peça. Rolou aquela intertextualidade na minha cabeça que faz a gente se empolgar mais ainda com as coisas de que gosta.

O trombone e o trompete, além do pianista, tiveram também seus momentos de vocal. Dos músicos de frente, só o Woody não cantou. Mas o que eu mais gostei foi quando o trombone se levantou de sua cadeira ainda tocando e foi até o microfone, para entoar todo coquete: “all the girls go crazy ’cause of the way I walk”, ao que o banjo ecoava “’cause of the way he walks”. Com aquela voz macia e aquele jeitinho de cantar meigo, ao mesmo tempo brincalhão e sedutor, era para deixar todas as garotas loucas mesmo.

Saí de lá renovada, feliz da vida, e agradecida por poder ver o Woody Allen no palco. Em São Paulo ia ser mais difícil. Pois é, em Genebra também há coisas interessantes para se fazer, basta saber procurar.

PS: mesmo na Wikipedia estava difícil encontrar os nomes dos músicos, mas para quem quiser saber mais descobri que existe um documentário sobre a New Orleans Jazz Band (não sei se a formação atual é a mesma dessa época): http://www.imdb.com/title/tt0141986/
Acho que da próxima vez vou levar o bloquinho mesmo. Afinal, não foi à toa que estudei jornalismo.

Let it play

Não consigo parar de ouvir a gravação do Jamie Cullum de Don’t Stop the Music. Além de explorar minuciosamente as possibilidades jazzísticas da música com seu piano, fez uma interpretação nada vulgar e muito intensa desse sucesso recente das pistas de dança.

Então, na minha obsessão, fui procurar mais detalhes sobre a música na Wikipedia. Não tem nada lá ainda sobre a versão do Jamie Cullum, mas achei engraçado que o verbete diz “[...] and [the song] is lyrically about a having fun on the dancefloor”. Having fun on the dancefloor? Se alguém ainda não tinha percebido o teor erótico da música, faz favor de ouvir a versão do Cullum.

É simplesmente irresistível o modo como ele encadeia

Do you know what you started
I just came here to party
But now we’re rocking on the dance floor
Acting naughty
Your hands around my waist
Just let the music play
We’re hand in hand
Chest to chest
And now we’re face to face

E aí vem o piano com o refrão para nos levar embora, bem do jeito que alguém no auge do desejo se deixa engolir por ele.

Olhando bem, na verdade, a letra é até meio explícita demais (por exemplo no verso “keep on rocking to it” – imagina a reação que isso teria causado na década de 1950!). Curioso é que, como parece ser a regra na música pop nos últimos tempos, ninguém se importa em ser explícito (excelentes paródias nesse sentido são feitas pelo humorista Jon Lajoie, procurem no You Tube). Talvez seja exatamente por isso que a insinuação que o Cullum explorou na versão dele tenha passado despercebida pelo autor do verbete na Wikipedia – excesso de exposição causa insensibilidade, pelo menos nesse caso. Lembra a história do Mc Luhan falando sobre o caráter pouco sexy da minissaia? Aí vem o Jamie Cullum e é como se ele fizesse o caminho contrário, ele vai mostrando um pouco de cada vez, conforme vamos chegando mais perto dele e o clima vai esquentando. Dá gosto de ver uma apropriação tão elegante da letra e da melodia! Vou passar o fim de semana todo pedindo ‘please don’t stop the music…’

PS: Pra quem quiser ouvir, faz parte do álbum novo do Cullum, ‘Pursuit’ e está disponível no portal da Rádio Eldorado.