Arquivo da tag: genebra

Mais um bocadinho de Genebra, pois

A coisa mais comum é você ouvir pessoas falando português na rua. A maioria dessas pessoas fala português de Portugal (7% da população do Cantão de Genebra é de portugueses), o que já é mais do que suficiente para se sentir mais em casa do que numa cidade onde ninguém entendesse sua língua materna. Apesar de os portugueses serem mais numerosos que os brasileiros, não tem uma vez que eu saia na rua e não ouça brasileiros conversando.

Ouso dizer que é mais fácil você se virar aqui em português do que em inglês porque, a não ser pelos hotéis e uma ou outra loja maior, na maioria dos lugares os funcionários não falam inglês, embora Genebra seja o quartel general da ONU na Europa.

Claro que com isso você precisa prestar atenção nas coisas que diz por aí, para não correr o risco de fazer o papelão que dois garotos fizeram uma vez no metrô de Paris com minha irmã. Nós estávamos dentro do vagão, lotado, no final da tarde, quando eles entraram, conversando em português com um sotaque do interior de São Paulo. Daí um deles olhou pra minha irmã e disse para o outro: “olha, aquela ali eu pegava, dá pro gasto…” e o outro: “é, verdade, bonitinha. Não tá entendo nada do que você tá dizendo, a francesinha.” Na estação seguinte nós descemos, e caímos na gargalhada ao passar por eles, que devem ter tido vontade de cavar um buraco e enfiar a cabeça dentro. Ou não.

De qualquer forma, eu acho bem bacana poder ser atendida em um restaurante ou uma loja em português. E de quebra fico conhecendo melhor o jeito deles de falar, que eu acho bonitinho. Como eles mesmos dizem, gosto imenso.

PS: Vou passar uns dias sem postar. Logo mais volto com ideias fresquinhas. Bom fim de semana!

Nem Pelé, nem O Guarani – Federer e Guilherme Tell

Bandeiras de Cantões suíços e da comuna de Carouge. Place de la Sardaigne, Carouge (Foto: Maria Alice Stock)

O único dia em que se pode ouvir fogos de artifício em Genebra é 1 de agosto, dia Festa Nacional (que comemora o pacto assinado entre os três primeiros cantões em 1291 de lutar contra a dominação estrangeira). Não, eles não soltam fogos no ano novo, nem quando o time de hockey de Genebra, o Servette, ganha (o máximo que eu já ouvi foi um vizinho entoando o grito da torcida: “allez, Servette, allez, allez”). Hockey é um esporte de destaque aqui, embora não chegue aos pés da adoração que os suíços tem pelo Federer. Tem um jornal sensacionalista que fez até concurso para os leitores tentarem adivinhar o nome das gêmeas recém nascidas do tenista no ano passado.

Não sou particularmente ligada em tênis – pra dizer a verdade não entendo o sistema de pontuação, mas também nunca tentei com muito afinco – então tive que ir dar uma olhadinha na Wikipedia. Lá fiquei sabendo que na infância o Federer hesitou entre tênis e futebol, esporte para o qual ele levava jeito. Já pensou se ele tivesse escolhido o futebol? Será que esse seria um esporte mais importante por aqui? Os suíços (genebrenses, em todo caso) são tão desligados do futebol que pouco tempo atrás conversei com algumas pessoas, em ocasiões diferentes, que achavam que a Copa deste ano seria no Brasil, não na África do Sul. Isso sendo que a Suíça se classificou, vejam só! Para eles é coisa de outro mundo o país parar para assistir a uma partida de futebol, quando eu conto como é no Brasil eles acham a maior graça.

O primeiro herói nacional – A lenda de Guilherme Tell é uma das coisas que você provavelmente conhece sem saber que é suíça. Essa é aquela história do arqueiro que é obrigado a provar seu talento acertando uma flecha na maçã posta sobre a cabeça de seu filho, e é uma peça importante do folclore suíço.

Nessa época, a Áustria dos Habsburgos dominava o cantão de Uri (um dos três que haviam jurado lutar contra a ocupação), onde Tell vivia. Segundo a lenda, o governador austríaco da cidade de Altdorf pendurou um chapéu em um mastro numa praça, simbolizando o poder habsburgo. Todos deveriam se curvar diante do chapéu, em sinal de submissão. Guilherme Tell e seu filho passaram na praça sem fazer a reverência, e foram feitos prisioneiros. O governador obrigou Guilherme a acertar uma flecha na maçã sobre a cabeça de seu filho e, como sabemos, ele conseguiu.

Mas a história não acaba aí (eu sempre pensei que com a maçã tudo estivesse resolvido). O governador notou que Guilherme tinha uma segunda flecha, e perguntou-lhe por que. O arqueiro respondeu que, caso tivesse errado e matado seu filho, iria acertar a segunda flecha no coração do governador. Furioso, ele mandou prenderem Guilherme novamente. Quando o governador e seus homens levavam Guilherme para a prisão, viajando de barco sobre o Lago Lucerna, começou uma tempestade, e acabaram soltando Guilherme para que ele pudesse conduzir o barco (aparentemente, ele era bom em tarefas tipo Missão: Impossível). Assim que conseguiu chegar à costa, Guilherme se escondeu e depois assassinou o governador, iniciando o levante contra a dominação austríaca de 1308.

Lago Léman – Pequenas curiosidades

Trânsito com vista - Segundo o que me disseram – não consegui confirmar se é verdade – Genebra tem a ponte mais congestionada da Europa: a Ponte do Mont Blanc, que atravessa o rio Rhône. Talvez não seja a ponte por onde passe o maior número de veículos, mas que ela está sempre congestionada, isso é certeza. É legal atravessá-la a pé para ter uma vista do lago Léman, que começa bem ali.

Ponte do Mont Blanc, sempre cheia (Maria Alice Stock)

Visões etílicas? - Aliás, este fim de semana estive em Yvoire, uma cidadezinha medieval à beira do lago (do lado francês) e descobri que existia também um “monstro do lago Léman”, chamado Fanfoué. Abaixo está a foto de uma reconstituição feita por Alan Guichardot em tamanho real. Segundo a placa explicativa, a reprodução é baseada no testemunho “preciso e reiterado de Joseph Layat, piloto de barco (1821-1860), levado de seus entes queridos por uma maldosa cirrose do fígado (nem sabia que existiam outras!) em 18 de agosto de 1860, a quem ele [o monstro] aparecia bastante regularmente nas noites de verão na hora do aperitivo”.

Tentativa de réplica do Fanfouet, Yvoire (Maria Alice Stock)

Com ou sem monstro, o Lago é lindo. Dentro de Genebra, existem barquinhos que fazem a travessia, utilizando 5 pequenos piers. Os barcos se chamam “mouette”, que quer dizer gaivota. É como um transporte público qualquer – você usa o mesmo bilhete do ônibus ou do bonde para embarcar- só que com muito mais charme.

Mouette com a fonte Jet d'Eau ao fundo (Maria Alice Stock)

Circo de pulgas – No verão, há partes do lago onde você pode nadar. Eu não tenho coragem, por causa do que eles chamam de “pulgas de pato”. A população aviária do Léman é bem significativa: cisnes, patos e gaivotas estão presentes por toda parte o ano todo e no verão recebem a visita de várias outras espécies. Essas aves aquáticas são atacadas por um parasita que em sua fase larval se fixa na pele dos animais. Na dos patos, mas na das pessoas também. Não tem risco para a saúde, o pior que acontece é você ficar com vermelhidão e coceira por alguns dias, mas eu acho meio nojento e prefiro nadar na piscina. A legislação ambiental é super rigorosa e não permite o uso de veneno contra as larvas. Para mim está perfeito assim, poder andar à beira do lago já me faz feliz.

Aves à beira do Léman (Maria Luisa Stock)

O lixo, ah, o lixo

Como em vários outros países, na Suíça separar o lixo reciclável é obrigação por lei. Teoricamente, leva multa quem não fizer, embora eu não saiba de ninguém que tenha levado. São seis tipos de dejetos que você tem que triar: metal, papel, garrafas PET, vidro, lixo orgânico e “lixo doméstico”. O metal, o vidro e as garrafas PET você tem que levar até os containers específicos – cada bairro tem alguns em lugares determinados, sempre tem um perto o suficiente para você ir a pé.

Containers de lixo da Place de la Navigation (Foto: Maria Alice Stock)

O papel você tem que colocar na calçada, em frente ao prédio, todas as terças-feiras à noite, que o caminhão passa para recolher na madrugada de quarta. Que azar o deles quando está chovendo ou nevando… O lixo orgânico são os restos de comida, cascas de fruta, flores murchas, etc – que você tem que jogar em um saco de lixo verde ou branco, específico para isso, feito de material biodegradável. Esse material vai para a compostagem (com saco e tudo, imagino) e presumivelmente vira adubo.

O simpático saco especial para lixo orgânico. (Foto: Maria Alice Stock)

O “lixo doméstico” é tudo que não se encaixa nas categorias anteriores, e vai para uma usina ser incinerado. Que dó, né? Eu pelo menos levei algum tempo para me acostumar com a ideia de que eles não reciclam por exemplo as embalagens de plástico (todas aquelas bandejinhas que se impuseram nas nossas vidas como se fossem inevitaveis). O único plástico que é reciclado são as garrafas PET. Melhor que nada, sem dúvida, mas na minha opinião eles deveriam procurar reduzir ao mínimo possível o volume de lixo a ser incinerado. Porque queimar lixo produz gases tóxicos, além de gás carbônico, que obviamente nós já estamos produzindo em excesso. E de qualquer forma eles tem que achar uma destinação para as cinzas que sobram da queima.

Existem ainda os coletores de pilhas e baterias, de lâmpadas e, em alguns lugares, de cápsulas de café. Aquelas tipo Nespresso, que são super populares por aqui. Tenho alguns amigos no Brasil cujo sonho de consumo é comprar uma maquininha Nespresso. Pois é, pessoal, esse cafezinho em cápsula, além de caríssimo, é péssimo para o meio ambiente. Não importa que a Nestlé diga que recicla parte das cápsulas, que ao menos são feitas de alumínio, um material adequado para reciclagem. O dever de todos comprometidos com o meio ambiente e o futuro da humanidade é antes de mais nada reduzir a quantidade de lixo produzida. Novamente, melhor que nada que existam coletores para cápsulas usadas, mas acho totalmente fora de propósito pagar caro por um cafezinho que polui infinitas vezes mais do que o que vem em pacotes maiores só porque ele vem em cápsulas coloridas e sei lá eu quantas variantes.

Uma coisa que eu acho absolutamente necessária de ser implantada no Brasil e que se faz aqui é encaminhar para recuperação os aparelhos que as pessoas “jogam no lixo”. Você talvez tenha uma coleção de celulares velhos em casa, sem saber o que fazer com essas tranqueiras. Tem gente que acumula computadores antigos, aparelhos de som, até máquina de lavar quebrada eu já vi gente guardar, por não saber como se desfazer dela. Em São Paulo, ou você encontra uma instituição de caridade que aceite como doação (mas se estiver quebrado é mais difícil de eles quererem), ou você se vira sabe-se lá como para se livrar da máquina que não funciona mais, ou que você substituiu por uma nova. Aqui, as lojas são obrigadas a aceitar de volta as máquinas e aparelhos antigos, e encaminhar para reciclagem. Quando você compra uma geladeira, por exemplo, já paga uma taxa antecipadamente pela reciclagem. No momento em que quiser se desfazer dela, pode ligar para a prefeitura e pedir para virem buscar, ou levar de volta na loja. Parece frescura? Então pensem nos aterros e nos mananciais em São Paulo cheios de lixo. Não dá para fazer de conta que as pessoas não jogam fora eletrônicos ou eletrodomésticos. Alguém tem que assumir a responsabilidade de gerir esse “lixo” (na minha opinião, deveriam ser os fabricantes). Sei que algumas lojas de celular em São Paulo já recolhem aparelhos e baterias. Ainda falta achar uma destinação adequada para os outros dejetos eletrônicos.

Uma última curiosidade sobre a gestão da sujeira em Genebra: para evitar aquele problema tão conhecido de quem anda pelas calçadas dos Jardins ou de Higienópolis, aqui em cada quarteirão tem uma “caninette”: uma lata de lixo para o cocô de cachorro, com saquinhos de graça para o dono recolher. Não é uma ideia bacana? Além disso, as calçadas são mantidas limpas por uma espécie de caminhãozinho-vassoura que passa de vez em quando lavando tudo.

Caninette, a aliada das calçadas livres de cocô. (Foto: Maria Alice Stock)

Como é Genebra, afinal? – Parte 1

Gaivotas em um dos piers do Lago Léman

Inspirada por um post do meu amigo Denis sobre Berlim, resolvi escrever um pouco sobre coisas cotidianas e curiosidades de Genebra. Nos próximos sete dias, vou colocar no ar um tópico por dia. Comecemos pelo básico:

Onde, como, quando, por quê?

Ah, aquela pegadinha do professor de Geografia: qual a capital da Suíça? Não, não é Genebra, é Berna, que fica mais a nordeste, na parte alemã.

A propósito, a primeira coisa que eu acho estranha neste país é que eles falam quatro línguas oficiais: alemão (64% da população), francês (20%), italiano (6,5%) e romanche (0,5%). A conta não fecha em 100%, né? É porque os 9% restantes falam línguas estrangeiras (entre elas o português, como veremos em um post futuro). Na escola, as crianças aprendem as três línguas principais, mas pelo que vimos até agora elas tratam de esquecer as duas que não usam no dia a dia depois.

A Suíça existe desde 1291, quando os três primeiros cantões se uniram contra a dominação dos Habsburgos. A partir daí, outros cantões foram de unindo à Confederação até chegarem à formação atual. Aliás, muita gente que já visitou Genebra acha que a Suíça tem 22 cantões, por causa da praça que tem esse nome. Na verdade, são 26 cantões hoje em dia. Só que Genebra foi o vigésimo segundo cantão a entrar para a Confederação, por isso eles gostam de lembrar esse momento na história.

O cantão de Genebra (que é basciamente composto pela cidade de Genebra e seus “subúrbios”) é um pedacinho de Suíça “cercado de França por todos os lados”. Bem, não todos, uma pequenina extensão faz fronteira com o Cantão do Vaud. Em 1815, quando Genebra entrou para a Confederação Helvética (de onde vem a sigla CH para identificar Suíça), a França cedeu um pedaço de terra para que houvesse continuidade territorial, senão Genebra teria sido mesmo um Cantão Suíço “ilhado” na França.

Fonte: Swiss Federal Statistic Office, 2010 (http://www.bfs.admin.ch). As anotações são minhas.

Esse lago enorme que tem uma pontinha em Genebra é o Léman, onde tirei a foto com que começa o post.

No centro velho da cidade, um dos meus lugares favoritos, tem uma escultura celebrando o Charles Pictet de Rochemont, o diplomata que habilmente conseguiu convencer a França a ceder as terras (imagino ele como uma espécie de Barão do Rio Branco para os genebreses). É este sujeito aqui:

Pictet de Rochemont, curtindo um lindo dia de inverno (Janeiro, 2010)

All that jazz

Woody Allen and his New Orleans Jazz Band vieram a Genebra. No dia em que comprei o ingresso, mais de um mês atrás, não conseguia nem pegar no sono de pensar que ia ficar cara a cara com o gênio. Não tem nenhum filme dele que eu não tenha gostado de ver, mesmo os que são mais fraquinhos ainda são interessantes, e tem aqueles inesquecíveis que geraram piadas internas eternas entre meu marido e eu. Ontem, chegou o grande dia.

O show foi na Arena, que seria o equivalente de um Credicard Hall daqui, mas mais parecido com um Ginásio do Ibirapuera do que com o Credicard Hall, porque parece uma grande arquibancada de ginásio mais que uma casa de shows. A Arena é enorme para os padrões de Genebra, e nós que havíamos comprado um ingresso barato demos a sorte de poder sentar mais perto do palco porque eles não haviam vendido todos os lugares e reacomodaram todo mundo nos melhores disponíveis. O palco era pequenininho, lá embaixo em meio à pista VIP de cadeiras removíveis.

Achei um pouco estranho um show de jazz num lugar que se parece com um ginásio, pois jazz tem aquele gostinho intimista, pra ouvir sentado à uma mesa de bar. Mas eu estava tão empolgada de ver o Woody Allen, e de ouvir jazz ao vivo pela primeira vez desde que me mudei para cá, que resolvi abstrair esse detalhe.

Na porta do show umas mocinhas estavam distribuindo amostras grátis de batata chips, eu logo me perguntei de quem tinha sido a brilhante ideia de espalhar saquinhos barulhentos por toda a plateia de um show de jazz. Provavelmente foi da mesma pessoa que resolveu organizar um show de jazz em um ginásio. Para nossa sorte, só um dos nossos vizinhos resolveu comer suas batatas, e logo no começo. Quando ouvi o barulho do pacote abrindo, lembrei da vez em que um amigo deu um esculacho em uma pessoa que abriu vagarosamente um Sonho de Valsa durante uma ópera no Municipal de São Paulo (achando que abrir devagar ia diminuir o incômodo, enquanto produziu somente aquela tortura de ouvir o barulho por mais tempo). O que me consolou foi que a amostra grátis era bem muquirana, então o sofrimento não podia durar muito.

Os músicos entraram no palco um a um já tocando uma lânguida Only You. Woody entrou por último com seu clarinete, e foi somente quando ele apareceu que os aplausos vieram. Estranhei um pouco essa plateia, achei meio desrespeitoso com os outros músicos, mas ela teve chance de se redimir depois aplaudindo os solos dos excelentes trombone e trompete e do sensacional líder da banda e banjo, que cantava aqui e ali com uma voz deliciosa de jazz. O pianista também teve seus momentos de glória, o baixista fez um único solo e para o baterista sobrou ficar de acompanhante mesmo, last but not least. Aliás, as músicas sempre continham solos dos instrumentos de frente, e daí a plateia achou por bem aplaudir todos os solos, tal e qual criancinhas repetindo bê-a-bá na escola, entregavam suas palmas solo após solo, de modo educado, mas sem muita emoção ou espontaneidade. Ou eu que sou severa demais nesses genevois, coitados, depois que o Calvino proibiu música e dança e obrigou as crianças a estudarem oito horas por dia seis dias por semana dá para entender que o trauma demore tanto para sair.

Woody Allen pegou o microfone após duas músicas e agradeceu a nossa presença (não a minha evidentemente, mas a da plateia como um todo) e com aquele jeito charmosamente desajeitado disse que eles tocam pelo próprio prazer e que ficam agradavelmente surpresos pelo fato de que alguém se interesse por assistir. “Sit back, relax and have a good time”, ele concluiu. Eu estava tão entusiasmada que não dava nem para me recostar no assento, seguia cada música como se estivesse assistindo uma final de vôlei do Brasil nas Olimpíadas (não vou dizer um jogo da Copa porque nesses eu mal consigo ficar sentada e não paro de gesticular).

Estava procurando nos jornais de Genebra o nome dos demais integrantes da banda para poder dizer a vocês (não levei caderninho para anotar porque estava lá para assistir, não para cobrir) mas, por incrível que pareça, são 9h e não tem NADA sobre o show em nenhum dos principais jornais. Nem no mais respeitável, nem no mais fácil de ler, nem no equivalente ao Notícias Populares, nem no 20 Minutos! Estranhíssimo, ainda mais considerando que não é todo dia que acontece um show desse tipo por aqui. Acho que eles não costumam fazer cobertura de eventos, somente dão o show da seção de serviços e pronto. Para mim ficou parecendo um buraco no jornal. Em São Paulo a primeira coisa que eu fazia em dia seguinte de show era abrir o Estadão para ler o Jotabê Medeiros e saber como havia sido, se eu não tivesse ido, ou ver se concordava com ele, se tivesse.

Os caras da mesa de luz levaram algum tempo para perceber que alguns spots estava indo bem na cara de quem sentava nas cadeiras mais altas, mas acabaram resolvendo o problema. Isso, somado ao fato de distribuirem batatinhas e de organizar o show na Arena me fez pensar que fazer um curso de produção cultural não era algo tão vão quanto eu pensava na época em que eu mesma trabalhava nos bastidores de palcos e me dei o trabalho de assistir aulas sobre o assunto. Tem gente sem noção nesse negócio, e essas gafes mais ou menos importantes na produção do show do Woody Allen me deixaram meio com vergonha alheia. Um bom produtor (não olhem para mim, saí do business quando ainda era estagiária) sabe que show mal produzido é como uma falta de educação com quem está se apresentando. Pensei comigo: “perdoa-os, Woody, eles não sabem o que fazem. Como você há bem de saber, Freud explica”.

Mas nem os pecadinhos da produção conseguiram atrapalhar o show. Lá pelas tantas, o vocalista-banjo começa “By the light, by the light, by the light of the silvery moon…” e nós demos um pulo na cadeira, meu marido e eu. Para quem assistiu a versão original de Os Produtores, do Mel Brooks, essa é a música que Zero Mostel e Gene Wilder cantam no bar acompanhados por um bêbado enquanto comemoram o tão esperado fracasso da peça. Rolou aquela intertextualidade na minha cabeça que faz a gente se empolgar mais ainda com as coisas de que gosta.

O trombone e o trompete, além do pianista, tiveram também seus momentos de vocal. Dos músicos de frente, só o Woody não cantou. Mas o que eu mais gostei foi quando o trombone se levantou de sua cadeira ainda tocando e foi até o microfone, para entoar todo coquete: “all the girls go crazy ’cause of the way I walk”, ao que o banjo ecoava “’cause of the way he walks”. Com aquela voz macia e aquele jeitinho de cantar meigo, ao mesmo tempo brincalhão e sedutor, era para deixar todas as garotas loucas mesmo.

Saí de lá renovada, feliz da vida, e agradecida por poder ver o Woody Allen no palco. Em São Paulo ia ser mais difícil. Pois é, em Genebra também há coisas interessantes para se fazer, basta saber procurar.

PS: mesmo na Wikipedia estava difícil encontrar os nomes dos músicos, mas para quem quiser saber mais descobri que existe um documentário sobre a New Orleans Jazz Band (não sei se a formação atual é a mesma dessa época): http://www.imdb.com/title/tt0141986/
Acho que da próxima vez vou levar o bloquinho mesmo. Afinal, não foi à toa que estudei jornalismo.

Longe de casa há bem mais de uma semana

Com que motivação partir para a faxina semanal do meu apartamento, que já está atrasada de alguns dias? De repente sentada ao computador ouvindo uma das minhas trilhas sonoras preferidas, percebi que estou triste. Tal qual a Maria Antonieta de Sofia Coppola passeando pelos jardins de Versalhes, tenho o despeito de ficar triste, mesmo sendo um dia de sol, mesmo estando em um dos países com melhor qualidade de vida no mundo, mesmo sendo amada pela minha família – coisa com que a Maria Antonieta talvez nem pudesse se consolar, a julgarmos pelo que sobrou daquela época.

Andei lendo um livro que se chama Os Clandestinos de Minha Avó, de uma autora suíça de origem tunisiana chamada Djemâa Chraïti. É um livrinho curto, meio romanceado, meio verídico, sobre imigrantes ilegais colombianos que trabalharam no apartamento de sua avó, amaparando-a quando já estava idosa demais para levar sozinha sua rotina. No livro, os colombianos ficam chocados com a solidão das pessoas na Suíça, com a distância entre os membros da mesma família, com esses idosos que precisam de ajuda mercenária porque as famílias não dão conta, ou não querem se envolver, com o dia a dia de quem está terminando sua temporada terrena.

Também há as histórias muito tristes desses imigrantes, as razões que os levaram a deixar seu país natal e desembarcar nesta cidade que até hoje guarda a austeridade inspirada nos tempos de Calvino. Só lendo o livro foi que percebi quanta miséria existe mesmo aqui, embora não se veja muita gente pedindo dinheiro e não se ouça falar de gente que morre de fome, existe tanta miséria para além disso. Os apartamentos onde os imigrantes vivem empilhados uns nos outros, o medo constante da polícia, as saudades de casa – essas eu conheço bem, embora possa aplacar um pouco com o Facebook e o Skype, e além do mais eu não deixei para trás marido e filhos, como é o caso de muitos desses colombianos e com certeza de ilegais de outras nacionalidades também.

Acho que tenho sim o direito de ficar triste por uma coisa dessas. É gritante ver quão grande é a diferença entre a vida de um ilegal que chegou aqui para lavar pratos e a minha, que passo os dias lendo e escrevendo em casa e em breve vou frequentar a universidade. Enquanto picava uns champignons para o jantar de ontem eu pensava naquelas pessoas que acham que arte e filosofia são coisas para crianças mimadas e concedi que, se a pessoa que pensa assim teve que lutar pra sobreviver, posso lhe oferecer um pouco de compreensão ou, no mínimo, de compaixão.

Também me entristeceu perceber que, ao menos para os que serviram de personagem para o livro, ficou impossível voltar para casa depois de viver esse inferno na Suíça. Não tem nada esperando por eles em seu país de origem, eles perderam as raízes, não porque foram aculturados, mas porque tiveram que descer tão baixo na humilhação que já não encontram lugar onde quer que seja. Lá são olhados com inveja, desconfiança ou rancor pelos que ficaram, aqui são discriminados e quando muito tratados com algum paternalismo. É o tipo de coisa que o Manu Chao estava querendo dizer em Clandestino. Tem medo maior do que perder seu lugar no mundo?

Recebi esse livro da própria autora, que entrevistei para uma possível matéria para um site francês. Foi só depois de terminar de ler que entendi o que estava de fato por trás dos olhares curiosos que ela me lançava enquanto perguntava ao final de nossa conversa como eu me sentia na Suíça, o que eu achava dos suíços, se eu não estranhava as pessoas… eu respondi que gostava daqui, que sentia falta das pessoas do Brasil, que não conhecia muito bem os suíços, então não podia emitir uma opinião… criança mimada eu, ganho chocolate suíço todos os dias e fico bem protegidinha dos julgamentos deles e da tristeza daqueles que vivem pior que eu, e passo o dia fazendo essa filosofia de bar (ou de casa de chá, já que tomo muito mais Earl Grey do que cerveja) e escrevendo histórias para os meus semelhantes.

Acho que também uma outra ficha que caiu com o livro foi que, sim, eu tenho direito de não gostar daqui se quiser. Eu não preciso achar tudo maravilhoso simplesmente porque estou na Suíça! Parece que se a gente reclama para os conhecidos que estão no Brasil, estamos fazendo algum tipo de sacrilégio. Pois é, vai aguentar estar numa cidade tão diferente daquela em que você cresceu, onde você não conhece quase ninguém, justo você que gosta de falar sem parar e nunca almoçava sozinha em São Paulo. Ia ser dificil em qualquer lugar, em Londres, em Paris, em Barcelona. E suspeito, cada vez com mais segurança, de que é mais difícil ainda sendo uma cidade de 180 mil habitantes que tem um comportamento austero.

Nós achamos estereotipados os comentários de que brasileiros são festeiros, dançam, riem, cantam. Quando você vem para um lugar como Genebra você vê que, perto deles, somos mesmo os maiores boêmios, mesmo eu, que nunca saía para dançar em São Paulo e só de vez em quando para um bar. Em São Paulo não é preciso cair na balada para ter uma noite animada, reunir os amigos em casa já é suficiente. Aqui eu fui pela primeira vez a uma festa sem música. É, não tinha música, só as pessoas comendo e conversando. Meu homeopata daqui, que é suíço, disse que a esposa dele foi fazer um curso em outra cidade da Suíça onde não conhecia ninguém, e logo que chegou era seu aniversário. Ela tinha uma colega brasileira no curso que, quando ficou sabendo do aniversário, organizou uma festinha com a turma. Meu homeopata achou isso bastante curioso, o fato de para um brasileiro ser inconcebível passar seu aniversário sozinho em casa. Para um suíço, é normal. Nossa, morri de depressão só de pensar!

Uma amiga brasileira-suíça me disse que eu ia achar os suíços caipiras. Bom, os suíços como um todo vai ser difícil dizer, porque além de tudo eu não falo alemão e ainda conheço pouco do país, mas Genebra é meio caipira sim. Agora que estou aqui há algum tempo, percebo quando vou para uma cidade grande, como Lyon, que sou das poucas pessoas que obedecem o farol para pedestres e me impressiona ser abordada na rua por gente pedindo dinheiro ou vendendo flores. Quando fazia somente dois meses que estava aqui, fui passar uns dias em Londres e fiquei chocada com o tanto de gente dentro do metrô em Victoria. Digo para o meu marido que temos que visitar sempre cidades grandes, se não vamos perder o hábito e ficar parecendo aqueles gringos em São Paulo, que não sabem nem atravessar a rua.

Esses últimos parágrafos eram pra explicar outra razão pela qual estou triste. De insatisfação. Triste pelas pessoas que vivem de uma forma difícil aqui onde eu vivo confortável, e triste pela insatisfação de mesmo confortável estar tão longe daquilo que entendo por estar em casa. Adoro meu apartamento, gosto do bairro tranquilo onde moro, aproveito a aula de hidroginástica gratuita que a prefeitura oferece, converso com as colegas portuguesas na piscina, mas não tenho laços afetivos, a não ser pelo meu marido, o que certamente já é muita coisa, mas não substitui os amigos e o resto da família. Não é todo dia que me sinto assim, mas em vez de ver com negatividade esta sensação, prefiro entendê-la como lucidez.

Para muita gente seria loucura largar o Brasil e se instalar em um país distante, mesmo que com visto e emprego, mesmo que fosse para fazer um bom pé de meia. Para mim é uma descoberta, vim para cá para conhecer aquilo que morando no Brasil não seria possível, e para ter uma rotina mais tranquila também. Por baixo dessa aventura está a certeza de que o Brasil sempre estará lá como referência e como um lugar para onde eu posso voltar e retomar minha vida ‘normal’. Só que o Brasil não está lá parado, não tem como voltar para essa vida ‘normal’. Já ouvi várias histórias de gente que foi morar fora, depois voltou empolgado para ficar e finalmente não conseguiu se readaptar a seu país natal. No dia em que me dei conta de que quando voltar para São Paulo não vou morar no mesmo apartamento de antes, não vou ouvir os mesmos barulhos, ir na mesma padaria, fazer as mesmas caminhadas, foi um susto.

A saudade nos prega peças, a saudade que a gente sente é de uma coisa que não existe mais. Claro, as pessoas a gente pode encontrar novamente, e encontrar bons amigos depois de uma década é como encontrá-los depois de algumas horas. Porém a dinâmica das coisas é que muda. Os amigos que trabalhavam no mesmo prédio que eu e que eu via todos os dias podem nunca mais trabalhar no mesmo lugar… podem eles também mudar de cidade ou de país, as pessoas e as coisas não ficam esperando por nós. Isso é uma coisa subestimada por gente como eu, quando decide se mudar para outro continente. Onde eu estava com a cabeça?, me pergunto por um instante, pensando em quando me despedi de todo mundo, e daí eu lembro, eu estava com a cabeça no momento em que os veria novamente. Só colocando a cabeça lá mesmo para conseguir largar tantas pessoas queridas a dezenas de milhares de quilômetros! Do reencontro a cabeça ia para as viagens que eu ia poder fazer pela Europa, e voltava para as pessoas queridas, e era a certeza de que as pessoas queridas estariam sempre no mesmo lugar que me deixava tranquila o suficiente para partir.

Voltando então para os clandestinos que me fizeram sentir mal em primeiro lugar e ajudaram a trazer à tona essas constatações dolorosas, é quase irônico constatar que o colombiano desempregado e a escritora brasileira saiam de seus países, um buscando a sobrevivência, a outra, coisas e lugares novos, sem saber nem um nem outro no que essa mudança ia dar. Insatisfação generalizada – o clandestino está indignado com a miséria, eu deixo para trás minha cidade caótica e a política enxovalhada do meu país, os dois ficamos pasmados ao nos depararmos com uma cidade tão rica onde no entanto as pessoas parecem não fazer a menor ideia do que é aproveitar a vida. Eu tenho mais chance de ser feliz voltando a meu país, porque eu me desloco por opção, enquanto ele se desloca por necessidade, jogado para um lado e para o outro pelas correntes da economia pós moderna como aquele monte de coisas espedaçadas que chegam à praia no mar de ressaca. O que não quer dizer que eu não sinta por ele, alternando momentos de satisfação com a minha vida reflexiva, momentos de tristeza pela falta dos meus amigos, e instantes em que me concilio com autocompaixão essa situação de ser ao mesmo tempo uma pessoa sensível que procura ter coisas relevantes para dizer e uma criança mimada que tem o despeito de brincar manejando ideias e opiniões com a satisfação de quem brinca de Lego.

Na neve

Este fim de semana tive minha primeira experiência no esqui. Caí, dei encontrões em pessoas que estavam paradas conversando no final da pista – uma delas era um homem calçando os esquis em seu filho pequeno, por sorte eu estava devagarinho e ninguém se machucou. Hoje estou toda dolorida, e só tenho isso a dizer: quero esquiar de novo!

Para chegar à estação de Flaine, são quase duas horas de ônibus saindo de Genebra, metade desse tempo é de subida da serra. Aquela estrada que dá para um precipício, o chão centenas de metros abaixo, bem estreita. Por sorte, o motorista do ônibus conhece muito bem o caminho e os motoristas que circulam por ali parecem ser responsáveis. Apesar do medo que o precipício dá, a subida é uma sucessão de vistas paradisíacas. Flaine está a 1600 metros de altitude. Dá a impressão de uma colagem, a montanha recortada com o céu no fundo, e várias árvores cobertas de neve.

Lá em cima, uma construção em formato de L abriga lojas de equipamentos, restaurantes e imobiliárias, e no meio do L fica o páteo que leva ao início da pista e aos teleféricos para as pistas avançadas. Na porta de um dos restaurantes, um bernesse enorme brinca na neve com outro cachorro. Ele parece ser do restaurante, de onde sai um reggae que soa meio deslocado no meio da neve. Mas o cão não se dá por achado, pelo seu ar descontraído ele podia estar na Jamaica, bebendo cerveja na praia. Depois de terminar sua lutinha com o cachorro preto e branco, vasculha o chão em volta das mesas do terraço em busca de alguma comida, depois se deita atravessado na calçada. Mais adiante, um lhasa apso branquinho se esfrega de costas na neve, daquele jeito que os cachorros fazem depois de tomar banho para recuperar rápido um pouco da sujeira. Ele segue algumas pessoas nos esquis, depois volta, entra na loja de equipamento, sai de novo. Eu não sabia que cachorros gostavam tanto de neve.

Eu chego na escola e pergunto do que é que preciso para fazer a aula. Só as botas e os esquis, os bastões você não vai usar por enquanto. Eu achei isso um pouco estranho, não conseguia ver como ia conseguir esquiar sem os bastões, fazem parte do nosso imaginário de esqui que, convenhamos, deve ser tão impreciso quanto a imagem que um europeu que nunca foi ao Brasil tem do que seja o carnaval. Mas entrei na loja ao lado e pedi somente as botas e os esquis. A bota é bem desconfortável, principalmente porque fica bastante justa no tornozelo e aperta a batata da perna – ela é desenhada para você se inclinar para a frente, e não para trás, como muitos de nós temos tendência a fazer quando estamos parados.

Estava morrendo de medo de o professor ser um francês fleumático sem paciência com um casal de brasileiros com três décadas de vida nas costas e nenhuma experiência no esqui. As pessoas aqui começam muito cedo, mal sabem andar e já estão despencando montanha abaixo. Mas ele era bem simpático e paciente, e rapidinho entendeu que eu sou meio lenta e desajeitada para atividades esportivas. Nos primeiros quinze minutos de aula, eu fiquei meio preocupada, achando que não ia saber pôr nem tirar os esquis, e menos ainda sair esquiando daquele teleférico que é uma cadeirinha. Nada como levar um tombo no meio da pista e ter que se levantar sozinha para aprender a se virar.

Quatro horas e vários incidentes depois, estava na hora de pegar o ônibus de volta. As pessoas iam chegando e colocando seus esquis e snowboards no compartimento de bagagem. O motorista demorou para abrir a porta e deixar a gente entrar, eu já estava um pouco como crianças depois de um dia de agito e só queria saber de chegar em casa. Fiquei aliviada quando chegamos ao pé da serra, não estava muito a fim de fazer curvas radicais em um ônibus depois de escurecer numa estrada à beira de um precipício. No pedágio, filas enormes. Lembrei das estradas que vão pro litoral norte de São Paulo. Quem não tem praia vai à montanha. Aliás, no páteo onde os cachorros se divertiam na neve, tinha um monte de cadeiras de praia para as pessoas sentarem e tomarem sol em qual parte do corpo elas consigam deixar descoberta no frio de alguns graus negativos. A moça da loja de esportes explicou que as pessoas usam óculos escuros normais nos dias em que está sol, para não ficar com a marca da máscara. Notei mesmo que os professores todos tinham o rosto meio vermelho, sapecado de sol. Como o dia estava nublado, meu protetor solar deu bem conta do recado e vim para casa sem nenhum bronzeado facial (eu não tenho a sorte de poder me bronzear, já desisti disso e uso FPS 50).

Voltando da rodoviária, me senti toda orgulhosa de andar pela cidade com minhas roupas de esqui, ainda de luvas e tudo. Por onde você anda em um sábado fim de tarde, há pessoas voltando das estações, alguma carregando todo o equipamento, outras, que nem nós, só usando roupas esporte e luvas meio robocop. Roupa de esporte não é uma coisa muito comum de se ver aqui, até ao supermercado as pessoas vão de sapato, tênis é só para fazer ginástica mesmo, por isso uma pessoa vestida de roupa impermeável da cabeça aos pés destoa imediatamente das demais.

Eu agora me sinto iniciada em uma espécie de nova dimensão – os esportes de inverno. Comparando com o inverno chinfrim e instável de São Paulo, que nos surpreende com variações de temperatura de 15 graus ou mais em poucas horas de intervalo e dias de calor e ar seco, o inverno europeu, que dura vários meses, parece inacabável – se você mora em São Paulo, tente lembrar se já passou três meses sem usar bermuda. Provavelmente não, as roupas que usamos em São Paulo são as mesmas o ano todo, dá para ir à praia o ano todo, até entrar na água em julho, se você não for muito friorento. Aqui, por outro lado, dá para esquiar de dezembro até fim de abril, isso sem contar os meses de outubro e novembro, que já são frios, mas ainda não acumularam neve suficiente para esquiar. Isso quer dizer metade do ano em que usar uma bermuda na rua é uma ficção, e em que as aulas de natação se fazem somente em piscinas cobertas. Por isso é tão importante você saber o que fazer com o inverno. É uma parte grande demais do ano para passar simplesmente em frente à televisão, ou mesmo lendo, porque você ficaria parecendo uma versão intelectual do Garfield. Fora que, quando você consegue terminar uma descida sem cair, fica se sentindo o maior pro das Olimpíadas de inverno. Mesmo que os experientes já tenham descido a pista duas vezes nesse intervalo.

Só muda de endereço (e umas coisinhas mais)

Acontece que quando você muda de país, a sua vida no seu país de origem, que era simplesmente a vida como você conhecia, passa a ser isso – a sua vida no seu país de origem. Então tudo o que você fazia e as pessoas que você via e os seus hábitos mais simples, como tomar chá no sofá lendo o jornal, passam a fazer parte daquele conjunto de coisas que era o seu país para você. A saudade de casa então vira um saco de gatos, tem de tudo lá dentro, pessoas, lugares, aulas, encontros, sua mesa no escritório, os almoços com amigos, o ponto de ônibus… até a lavanderia que alagava quando chovia entra na amálgama de saudade, porque lá no Brasil você podia ter uma lavanderia com uma janela que não fechasse completamente nunca, já que a temperatura nunca caía abaixo de 10 graus.

Você não é como as demais pessoas que estão nas ruas da sua nova cidade. Algumas coisas surpreendem de forma positiva, outras nem um pouco. Você não é dali, é brasileiro, mas o que é que isso quer dizer? Pra saber, você tem que pensar em tudo aquilo quer você deixou para trás. Ah, mas ser brasileiro é ler as crônicas do Marcelo Rubens Paiva curtindo uma preguiça no sábado de manhã? Separar o lixo reciclável mesmo sem ser obrigado e lotar o porta-malas do carro para levar no Pão de Açúcar? Deixar passar quatro ônibus lotados antes de conseguir entrar no seu? Aproveitar a hora do almoço para dar risada com os amigos e enrolar tanto quanto possível para esticar esse momento, inventando pausa para o café, mesmo se você não estiver particularmente a fim de tomar café? Se sentir péssimo de ver as crianças pedindo dinheiro no farol e saber que mesmo se você der o dinheiro ele vai parar na mão de um explorador que deveria estar na cadeia?

Pode ser tudo isso, mas no final é só porque a sua vida era assim. Não porque isso seja algo da identidade brasileira. Mesmo assim, as pessoas aqui são diferentes. Elas nunca vão entender como é que uma cidade pode se tornar o monstrengo que São Paulo virou. Como é que pode ter tanta criança fora da escola. Nem como é que as pessoas podem se cumprimentar com beijos no rosto ao serem apresentadas umas às outras. E elas não fazem a menor ideia de quanto é doído para você ver o seu país caminhando na contra mão, cometendo graves ofensas à liberdade de imprensa, e mostrando que ser brasileiro, afinal, é engolir todo tipo de falcatrua e impunidade – e ai de quem for protestar no seu direito de cidadão, a tropa de choque espera com cassetete na mão em cima dos cavalos, supostamente para defender o “direito de ir e vir”. Tout compte fait, não dá para ter nostalgia do que é ser brasileiro, já que o sentimento pelo seu país é permeado por essa raiva de que as coisas sejam tão mal geridas… é bem ilustrativo o diálogo que eu tive com a balconista do Consulado:

“É melhor você não transferir seu título. Fica com o seu título do Brasil e daí é só você justificar pela internet no dia da eleição. Se você transferir seu título, você só vai poder votar pra presidente.”

“Mas moça, eu quero votar para presidente, é por isso que eu estou aqui.”

A cara da mulher era de quem nunca tinha ouvido isso antes, mais ou menos, “de que planeta você veio?”

Algumas coisas, afinal, não mudam nada por você estar longe do seu país natal. Você continua indignado. Só que longe dos amigos e da família.