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Na neve

Este fim de semana tive minha primeira experiência no esqui. Caí, dei encontrões em pessoas que estavam paradas conversando no final da pista – uma delas era um homem calçando os esquis em seu filho pequeno, por sorte eu estava devagarinho e ninguém se machucou. Hoje estou toda dolorida, e só tenho isso a dizer: quero esquiar de novo!

Para chegar à estação de Flaine, são quase duas horas de ônibus saindo de Genebra, metade desse tempo é de subida da serra. Aquela estrada que dá para um precipício, o chão centenas de metros abaixo, bem estreita. Por sorte, o motorista do ônibus conhece muito bem o caminho e os motoristas que circulam por ali parecem ser responsáveis. Apesar do medo que o precipício dá, a subida é uma sucessão de vistas paradisíacas. Flaine está a 1600 metros de altitude. Dá a impressão de uma colagem, a montanha recortada com o céu no fundo, e várias árvores cobertas de neve.

Lá em cima, uma construção em formato de L abriga lojas de equipamentos, restaurantes e imobiliárias, e no meio do L fica o páteo que leva ao início da pista e aos teleféricos para as pistas avançadas. Na porta de um dos restaurantes, um bernesse enorme brinca na neve com outro cachorro. Ele parece ser do restaurante, de onde sai um reggae que soa meio deslocado no meio da neve. Mas o cão não se dá por achado, pelo seu ar descontraído ele podia estar na Jamaica, bebendo cerveja na praia. Depois de terminar sua lutinha com o cachorro preto e branco, vasculha o chão em volta das mesas do terraço em busca de alguma comida, depois se deita atravessado na calçada. Mais adiante, um lhasa apso branquinho se esfrega de costas na neve, daquele jeito que os cachorros fazem depois de tomar banho para recuperar rápido um pouco da sujeira. Ele segue algumas pessoas nos esquis, depois volta, entra na loja de equipamento, sai de novo. Eu não sabia que cachorros gostavam tanto de neve.

Eu chego na escola e pergunto do que é que preciso para fazer a aula. Só as botas e os esquis, os bastões você não vai usar por enquanto. Eu achei isso um pouco estranho, não conseguia ver como ia conseguir esquiar sem os bastões, fazem parte do nosso imaginário de esqui que, convenhamos, deve ser tão impreciso quanto a imagem que um europeu que nunca foi ao Brasil tem do que seja o carnaval. Mas entrei na loja ao lado e pedi somente as botas e os esquis. A bota é bem desconfortável, principalmente porque fica bastante justa no tornozelo e aperta a batata da perna – ela é desenhada para você se inclinar para a frente, e não para trás, como muitos de nós temos tendência a fazer quando estamos parados.

Estava morrendo de medo de o professor ser um francês fleumático sem paciência com um casal de brasileiros com três décadas de vida nas costas e nenhuma experiência no esqui. As pessoas aqui começam muito cedo, mal sabem andar e já estão despencando montanha abaixo. Mas ele era bem simpático e paciente, e rapidinho entendeu que eu sou meio lenta e desajeitada para atividades esportivas. Nos primeiros quinze minutos de aula, eu fiquei meio preocupada, achando que não ia saber pôr nem tirar os esquis, e menos ainda sair esquiando daquele teleférico que é uma cadeirinha. Nada como levar um tombo no meio da pista e ter que se levantar sozinha para aprender a se virar.

Quatro horas e vários incidentes depois, estava na hora de pegar o ônibus de volta. As pessoas iam chegando e colocando seus esquis e snowboards no compartimento de bagagem. O motorista demorou para abrir a porta e deixar a gente entrar, eu já estava um pouco como crianças depois de um dia de agito e só queria saber de chegar em casa. Fiquei aliviada quando chegamos ao pé da serra, não estava muito a fim de fazer curvas radicais em um ônibus depois de escurecer numa estrada à beira de um precipício. No pedágio, filas enormes. Lembrei das estradas que vão pro litoral norte de São Paulo. Quem não tem praia vai à montanha. Aliás, no páteo onde os cachorros se divertiam na neve, tinha um monte de cadeiras de praia para as pessoas sentarem e tomarem sol em qual parte do corpo elas consigam deixar descoberta no frio de alguns graus negativos. A moça da loja de esportes explicou que as pessoas usam óculos escuros normais nos dias em que está sol, para não ficar com a marca da máscara. Notei mesmo que os professores todos tinham o rosto meio vermelho, sapecado de sol. Como o dia estava nublado, meu protetor solar deu bem conta do recado e vim para casa sem nenhum bronzeado facial (eu não tenho a sorte de poder me bronzear, já desisti disso e uso FPS 50).

Voltando da rodoviária, me senti toda orgulhosa de andar pela cidade com minhas roupas de esqui, ainda de luvas e tudo. Por onde você anda em um sábado fim de tarde, há pessoas voltando das estações, alguma carregando todo o equipamento, outras, que nem nós, só usando roupas esporte e luvas meio robocop. Roupa de esporte não é uma coisa muito comum de se ver aqui, até ao supermercado as pessoas vão de sapato, tênis é só para fazer ginástica mesmo, por isso uma pessoa vestida de roupa impermeável da cabeça aos pés destoa imediatamente das demais.

Eu agora me sinto iniciada em uma espécie de nova dimensão – os esportes de inverno. Comparando com o inverno chinfrim e instável de São Paulo, que nos surpreende com variações de temperatura de 15 graus ou mais em poucas horas de intervalo e dias de calor e ar seco, o inverno europeu, que dura vários meses, parece inacabável – se você mora em São Paulo, tente lembrar se já passou três meses sem usar bermuda. Provavelmente não, as roupas que usamos em São Paulo são as mesmas o ano todo, dá para ir à praia o ano todo, até entrar na água em julho, se você não for muito friorento. Aqui, por outro lado, dá para esquiar de dezembro até fim de abril, isso sem contar os meses de outubro e novembro, que já são frios, mas ainda não acumularam neve suficiente para esquiar. Isso quer dizer metade do ano em que usar uma bermuda na rua é uma ficção, e em que as aulas de natação se fazem somente em piscinas cobertas. Por isso é tão importante você saber o que fazer com o inverno. É uma parte grande demais do ano para passar simplesmente em frente à televisão, ou mesmo lendo, porque você ficaria parecendo uma versão intelectual do Garfield. Fora que, quando você consegue terminar uma descida sem cair, fica se sentindo o maior pro das Olimpíadas de inverno. Mesmo que os experientes já tenham descido a pista duas vezes nesse intervalo.