Lá estou eu novamente apaixonada por um personagem de livro. Tá bom, desta vez pelo menos não é o príncipe Michkin, que partiu meu coração nas páginas finais do Idiota. Desta vez também não é o Severus Snape, meu ever favorite personagem do Harry Potter, a ponto de minha irmã vir me dizer para, pelo amor de Deus, não colocar um nome desses no meu filho, quando eu tiver um. Ai, desta vez é o o Fitzwilliam Darcy caladão de Orgulho e Preconceito. E que clichê, pois descobri fuçando na internet que ele já foi copiado, citado e parodiado por inúmeros livros, filmes, músicas, dos mais variados gostos. Tem uma autora que chegou ao absurdo de caracterizar Darcy e Elizabeth como caçadores de vampiros, se tem cabimento uma coisa dessas… acho que nem aos 15 anos eu seria capaz de fazer uma distorção tão bizarra do livro da Jane Austen.
Não foi nem um pouco difícil, em meio ao frio na barriga que Mr Darcy me deu ao longo das páginas do livro, perceber que o Mark Darcy da Bridget Jones é uma paródia do Darcy original. O jeito contido do Colin Firth na adaptação de Bridget Jones para o cinema é a melhor transpoisção do supostamente orgulhoso Fitzwilliam Darcy para os dias de hoje. Mas a Bridget me parece mais insegura que Elizabeth Bennet, o que dá brecha para entrarmos naquela longa batalha sobre o possível teor machista do diário da Bridget Jones, na qual não vou entrar aqui. Mas que é delicioso ver o Darcy chamando Hugh Grant para a briga, isso é, vai, não tem como negar. Desculpem, leitores que não se interessam pelo sexo masculino, vocês devem ficar entediados com este post.
Pode não ser novidade para vocês, mas para mim foi, que o Colin Firth aceitou o papel do Mark Darcy para tentar se livrar da imagem de Fitzwilliam Darcy, que ele havia interpretado em uma adaptação de Orgulho e Preconceito da BBC em 1995, e acabou sendo o papel que o levou para o mainstream. Uma tal ‘cena da lagoa’ (que não existia no livro e foi acrescentada ao script da BBC) em que Darcy tira (parte) da roupa – o suficiente para o deixar indecoroso aos olhos da Inglaterra do início do século XIX – para nadar em uma lagoa e em seguida encontra Elizabeth, no melhor estilo ‘garoto camisa e calça molhada’, arranca até hoje suspiros no You Tube (http://www.youtube.com/watch?v=hasKmDr1yrA)
Colin Firth, que é um dos meus galãs favoritos do cinema (podem rir, eu não ligo), teve tanta dificuldade em se livrar da imagem de Darcy que em um outro filme o personagem que ele interpretava acidentalmente matava um cachorro chamado Mr Darcy. Só podia ser inglês, para ter esse senso de humor. Adorei.
Antes que este vire um post sobre o Colin Firth, continuemos. Vou avisando a quem não leu o livro ou não viu o filme, o post contem spoilers.
Fiquei dialogando com Miss Austen enquanto lia o livro, querendo saber o motivo de ela ter feito algumas escolhas. Primeiro de tudo, por que Elizabeth só se dá conta de que está apaixonada por Darcy nos capítulos finais. Ela não se daria o trabalho de incomodá-lo com suas provocações se ele não fosse interessante para ela. Ela poderia simplesmente ignorá-lo. Para mim, está claro que ele causou o maior impacto nela desde o primeiro encontro, embora ela tenha ficado ofendida ao ouví-lo dizer que ela era ‘tolerável, mas não a ponto de tentá-lo (a dançar)’. Quando ela pensava que estava ‘dando uma lição’ no rapaz orgulhoso, estava o tempo todo flertando com ele. Será que para uma leitora do século XIX isso não estava claro? Ou estou de novo atacando de psicóloga? Não tem importância, boa parte do gostinho do livro está em perceber que as coisas já mudaram e só Elizabeth ainda não deu o braço a torcer.
Segundo, Jane Austen deixa de especificar os diálogos justamente nos momentos que são mais cruciais, como quando Elizabeth finalmente aceita a proposta de Darcy. Isso poderia ser decoro da autora, que devia ruborizar só de pensar em escrever tais frases – foi o que pensei inicialmente. Depois, porém, assistindo às duas principais adaptações (1995 e 2005), fiquei com a impressão de que a omissão de Austen era para deixar a imaginação de cada um preencher o espaço. Teria sido delicioso ler mais alguns diálogos com a força da primeira proposta de Darcy, porém, tenho que dar mérito a Miss Austen por aquilo que ela deixou a nosso dispor.
Se eu tivesse lido Jane Austen quando eu era adolescente, provavelmente teria ficado indignada de todo o romance se passar sem nem um beijinho, nem sequer na bochecha. Com a idade que eu tenho hoje, fiquei agradecida de ver que tanto a adaptação da BBC quando a mais recente para o cinema com a Keira Knightley e o Matthew Macfayden são bem contidas no contato físico entre os personagens, fazendo jus aos costumes da época. Ia ficar muito pastelão o Darcy tascar um beijo na Elizabeth ao pedi-la em casamento. Muito obrigada, roteiristas e diretores com bom senso! O filme ainda toma umas liberdades, como a aproximação entre os dois personagens na cena em que estão discutindo – a melhor cena do filme, a meu ver (http://www.youtube.com/watch?v=1R-Zg5es7mg) ou a expressão dos sentimentos de Elizabeth quando tudo finalmente dá certo (http://www.youtube.com/watch?v=vtIgc3WAsSk). A interpretação de Macfayden, aliás, mesclando tão bem insegurança, paixão e uma pitadinha de altivez (ou seria timidez?) me fez incluí-lo na minha lista de ‘talentos para acompanhar’.
O que eu acho especialmente interessante é como, mesmo com toda essa contenção física, essas cenas tem um apelo enorme hoje. Não sou só eu que fico suspirando, é só dar uma lida nos comentários do You Tube para ver que muita gente acha o Darcy super, digamos, atraente. Impossível não pensar que perdemos uma boa dose de charme com a simplificação dos costumes. E mais ainda depois de adultos, porque quando se é adolescente, as incertezas fazem cada detalhezinho de uma conversa, o modo de se cumprimentar, um olhar, terem a maior importância na interpretação das intenções do nosso objeto de desejo. Depois que se é adulto, tudo fica mais simples, é muito mais fácil se aproximar e dizer na cara.
Não é para ficar saudosista que eu quis escrever, no entanto. Se a corte (ou flerte, como chamaríamos hoje) mudou, também mudou para melhor. Evidente que no século XIX ainda era muito comum as mulheres serem forçadas a se casarem contra a vontade, e muitas tinham que se casar simplesmente para ter como se manter. O caso da Elizabeth e do Darcy é totalmente ficcional, quantos desses vocês acreditam que existiram de verdade? Então, podemos suspirar pelo Darcy sem saudosismo, simplesmente considerando que é uma história como Harry Potter ou O Senhor dos Aneis. Tudo ficção.
PS: logo mais, um post só para falar da Keira Knightley, que já interpretou tantos personagens de época divinamente. E em tempo: meu Mr Darcy na vida real não deixa nada a dever para o da Jane Austen (e não importa o que eu esteja lendo no momento, sempre é capaz de me arrancar suspiros)!