Arquivo da tag: cinema

Homem de Ferro 2

Ontem não postei porque aproveitei o feriado fora de casa. Amanhã retomo a série de posts sobre Genebra, mas hoje quero falar sobre Homem de Ferro 2.

A ação evidentemente é o que chama mais atenção na parte 2 da franquia, e não decepciona. Porém, como de costume, gostaria de falar um pouco sobre o pano de fundo político. Certo, qualquer discussão política ou ética em um filme desse tipo vai ser superficial, como foi o caso já no primeiro Homem de Ferro. Mesmo assim, acho interessante observar as questões levantadas pelo cinemão, elas estão impregnadas de zeitgeist.

Homem de Ferro 2 “debate”, por assim dizer, o poder de dissuasão de armas de altíssima tecnologia. A questão vem no momento em que os Estados Unidos estão travando uma árdua queda de braço com o Irã, tentando impedir que os iranianos obtenham a bomba atômica. Ora, esta semana se falou muito sobre o tema. Cada vez mais analistas consideram que o Irã nuclear é fato, mais cedo ou mais tarde, e que os esforços deveriam se concentrar em lidar com esse novo cenário em vez de tentar em vão impedir que aconteça. O Homem de Ferro 2 trata justamente de um cenário como esse: enquanto o narcisismo de Tony Stark o impede de admitir que ele não pode ser sozinho responsável pela paz mundial, outros estão mais próximos do que ele imagina de desenvolverem trajes como o dele. Se alguém acredita ainda nessa história de carochinha de paz por posse de armas, eis aí uma boa oportunidade para mudar de opinião. Posse de armas nunca será para fins “pacíficos”.

Guerra virtual – Outra questão chave no filme é a vulnerabilidade dos sistemas de segurança. As guerra futuras podem muito bem ser ganhas no plano cibernético. Evidentemente, não seria da forma como vemos no filme, em que basta quebrar um firewall e se controla todo o armamento do inimigo. Porém, não faltaram exemplos recentemente da desordem que um ataque virtual é capaz de provocar. Nem é preciso ir buscar um exemplo grave (como os ataques de julho de 2009), basta olhar algo “trivial” como os hackers que se apropriam de contas de twitter de celebridades ou instituições.

O traje é a arma e o traje é Tony Stark - Marshall McLuhan falava da tecnologia como transformadora da sociedade, o Homem de Ferro leva isso ao paroxismo – por conta do reator em seu peito, ele e o traje são uma coisa só, uma arma capaz de (des)estabilizar as relações militares entre potências mundiais. E essa relação tem um lado sombrio – ele é vítima de intoxicação pelo mesmo equipamento que o mantém vivo. Assim, Tony Stark tornou-se involuntariamente o modelo a ser superado, somente a etapa do momento na corrida armamentista. Justo ele, que queria deixar a indústria da guerra para trás em nome de objetivos mais nobres.

O papel de mercenário desempenhado por Tony Stark antes de se tornar super heroi é ocupado agora por Justin Hammer, que quer lucrar em cima da tecnologia do homem de ferro. Para isso, ele vai se aliar ao russo Ivan Vanko (interpretado por Mickey Rourke), que tem uma agenda um pouco diferente: contas pessoais a resolver com Tony Stark. Ivan Vanko é o tipo de vilão que passa. O que não é passageira é a transformação desencadeada pelo surgimento de um novo tipo de armamento. A tecnologia, afinal, ainda lembrando Mcluhan, não tem moral. É uma caixa de Pandora, impossível saber de antemão qual seu impacto, tudo depende do uso que se faz dela. O pai de Stark havia imaginado o reator em arco para fins pacíficos, no entando ele acabou virando motor de uma nova geração de soldados.

Um pouquinho de romance (afinal, eu não sou de ferro!) - Pepper e Stark discutem como um velho casal, e a forma tão sintonizada como eles conversam (Pepper se refere a “nossa coleção de arte”) dá a impressão de que entre o primeiro filme e este alguma coisa aconteceu entre os dois que nós não ficamos sabendo. Mas não, embora Stark em sua angústia de quem está morrendo multiplique suas gentilezas a Pepper, muita coisa rola até que eles finalmente se entendam e se conciliem com aquele sentimento que você, eu e todo mundo que viu o primeiro filme já havia percebido há séculos.

Corta toda essa enrolação, vamos ao que interessa - Para quem não está nem um pouco interessado nos dilemas éticos limitados de Hollywood, as cenas de ação são ótimas. Ver a Scarlett Johansson detonando nas cenas de luta já vale o filme. A cena da corrida em Mônaco é um dos pontos altos – muito bom Tony Stark entrando no páreo em cima da hora e Mickey Rourke chegando com aqueles “chicotes high tech”. E o Homem de Ferro descobre que precisa sim de um side-kick: ninguém melhor do que o tenente-coronel Rhodey.

Som na caixa - a trilha sonora foi super bem escolhida, com bastante AC/DC e até uma faixa que soaria destoante (It Takes Two, de Rob Base) mas foi muito bem usada na briga entre Stark e Rhodey. Só faltou Iron Man, que toca no trailer, mas não no filme. Você nem precisa ser fã de heavy metal (eu não sou) para perceber que a trilha tão bem cuidada é uma das coisas que  fazem desse um filme de ação diferente dos outros (a atuação do Downey Jr é a principal).

É um filme para ser saboreado à luz dos dias atuais – Pode ser que Homem de Ferro 2 envelheça mal, mas neste momento está super sintonizado com o que estamos vivendo. Além da questão da dissuasão por posse de armas, que já está aí faz um tempo, o filme está repleto de referências a personalidades do mundo real, e o comportamento de Tony Stark é digno de uma dessas celebridades que figuram constantemente nos sites especializados por suas festas e escândalos (o próprio Robert Downey Jr até recentemente era notícia por seus problemas com drogas). Para completar, presença de Mickey Rourke, que é amigo pessoal de Downey Jr e recentemente saiu do fundo do poço como ele, é praticamente uma piada interna.

Finalmente, uma dica: fique até o fim dos créditos. Eu fiquei porque estava esperando que Iron Man fizesse parte das músicas dos créditos. Apesar da decepção com a falta dessa faixa, valeu ter esperado para ver a cena que dá a deixa para o próximo filme.

O que passou passou

Ontem assisti Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida pela primeira vez em muitos anos. Tenho uma afeição especial pela série do Indiana, como pela trilogia do De Volta Para o Futuro, são filmes que assisti à exaustão na infância, sabia as falas de cor (da versão dublada, já que a TV não transmitia com legenda e na locadora alugava-se a fita – lembram dela? – que não tinha opção de áudio).

Antes de o filme começar fiz uma breve explicação para meu marido sobre o que era a Arca da Aliança, porque ele nunca leu nadinha nem do Novo nem do Antigo Testamento – nessas horas me dou conta de que a educação religiosa que recebi faz as vezes de cultura geral também, embora eu tenha certeza de que não era exatamente o Indiana Jones que a minha avó tinha em mente enquanto me ensinava passagens da Bíblia.

Na minha lembrança Os Caçadores… era um filme ótimo, cheio de ação e capaz de dar alguns sustos. Fiquei um pouco decepcionada. Revisitado 29 anos após o lançamento o filme tem vilões que são uns docinhos perto do que vimos depois disso. Talvez eu não devesse ter em mente como base de comparação o Coringa do Heath Ledger, mas seria tão fora de propósito comparar os dois, sendo que ambos são filmes de ação feitos para o grande público, de grande bilheteria? Tudo bem, estamos falando de um filme de Spielberg, sempre tem aquelas pitadas de ingenuidade em seu trabalho, porém, mesmo tomando ele próprio como base de comparação, as adversidades dos Caçadores parecem sopa no mel perto do que acontece em Minority Report, realizado 21 anos depois.

Não quer dizer que eu tenha deixado de gostar do filme, o Indiana não perdeu nem um tiquinho do espaço que ocupa na minha memória afetiva. Como tantas outras crianças, eu quis ser arqueóloga depois de ver seus filmes. Além de querer imitar o Dr Jones, eu tinha como motivação nessa minha primeira inspiração vocacional as aulas em que estudávamos os dinossauros na pré-escola, que para mim eram cercadas de mistério: era como um momento de revelação do grande plano divino os minutos em que sentávamos em roda no chão da classe para ouvir a professora falando sobre aqueles bichos enormes e pregando com tachinhas as ilustrações de cada espécie no mural. Não tinha muita diferença entre aprender sobre os dinossauros e aprender sobre a Arca da Aliança. Talvez os dinossauros inspirassem mais temor, só isso. (Pretendo contar mais sobre esse meu fascínio palentológico precoce em outro post).

O que ficou claro para mim foi que o Indiana Jones guarda mais do seu valor por aquilo que representa no tecido biográfico das pessoas que cresceram vendo e revendo a saga do que pela obra em si. Aliás, uma armadilha isso que acabei de dizer, porque é difícil, senão impossível, falar da obra em si. Nem o Cavaleiro das Trevas tem significado fora de contexto. Enfim, o que estou querendo dizer talvez seja que, como cinema, a rigor, Os Caçadores da Arca Perdida seja mediano. Na cena em que Indiana luta contra os nazistas enquanto dirige o caminhão em que está a Arca, o mesmo recurso é usado repetidas vezes contra os inimigos (jogar o caminhão para o lado para desestabilizar o jipe do inimigo e os soldados que se penduram na lona do caminhão tentando chegar à cabine). Enquanto os egípcios que ele contratou cavam um buraco para chegar ao Poço das Almas, Indiana tira a túnica que estava usando para se disfarçar e fica ali dando sopa, de chapéu e tudo. Esse é o tipo de ingenuidade de que estou falando. Mas ele se eleva à altura de um personagem que tem nuanças suficientes quando ameaça explodir a Arca e recua depois que Belloq o desafia a cumprir a ameaça.

Cabe observar que o caráter de Indiana Jones não é o mais límpido que já se viu – ele saqueia sítios arqueológicos pelo mundo, sendo frequentemente trapaceado por outros aventureiros tão caras de pau quanto ele. Agradeço meus pais por não terem censurado esses filmes (nem sei se eles se davam conta dos problemas morais do Jones). Nos tempos atuais, em que paradoxalmente boa parte do que se produz para o público infantil oscila entre conteúdo edulcorado e incitação a uma sexualidade precoce, um herói complexo como o Jones pode ser um contraponto bem vindo. De qualquer forma, quando chega a hora do embate principal, ele está sempre do lado do bem: combate os nazistas e os exploradores da população miserável da Índia.

Provavelmente eu esteja levando o primeiro Indiana Jones mais a sério do que ele próprio se pretendia. Olhando de relance o verbete sobre ele na Wikipedia, vi que havia restrições de orçamento, e tudo foi filmado rapidamente, em poucos takes, num estilo “quick and dirty”. Mesmo assim, o sucesso na bilheteria foi retumbante, e até indicação para Oscar de melhor filme eles receberam (perderam para Carruagens de Fogo que, ironicamente, levou a estatueta mas não resistiu ao passar do tempo). Pode ser que, quase sem querer, Lucas e Spielberg tenham inaugurado um novo estilo de filme de ação – a década de 80 foi a década dos filmes de ação – e criado esse personagem que serve como uma alegoria bem humorada dos norte-americanos: estão sempre metendo o nariz por toda parte, muitas vezes expropriando países pobres de coisas que lhes são caras (recursos naturais, ou relíquias arqueológicas, como queiram), divertindo-se com belas mulheres e comprando muita briga no meio do caminho, porém sempre vencendo os corações de todo mundo pelo charme, e ainda pela defesa de ideais maiores do que seus pecadinhos veniais.

Conclusão: quando sentar hoje à noite em frente à TV para assistir Indiana Jones e o Templo da Perdição, não vou exigir nada além daquilo que esperava desse filme quando tinha sete ou oito anos: somente o deleite de ver o Harrison Ford novinho lutando contra os malvados e os arrepios provocados pelo jantar composto por surpresa de cobra, insetos cozidos e cérebros frescos de macaco. E dessa vez vou tentar não perder o sono por causa do ritual bizarro que envolve retirar o coração do marajá, como sempre acontecia para desespero da minha mãe, embora minha irmã e eu prometêssemos que “não ficaríamos com medo dessa vez”. Viu, mãe, prometo que não vou te acordar no meio da noite por causa do Indiana Jones! Já para o meu marido não posso garantir o mesmo…

David Bowie para crianças

Dirigido por Jim Henson, o mesmo que foi responsável pelo sucesso dos Muppets, e produzido por George Lucas, Labirinto foi um filme-chave para as crianças dos anos 80. David Bowie é o grande vilão Jareth, rei dos duendes. Jennifer Connelly é Sarah, uma adolescente que tem que ficar de baby sitter de seu meio irmão quando o pai e a madrasta saem uma noite. Ela se irrita com o bebê chorão e declama versos de uma peça que está lendo, que convocam os duendes para levar o bebê. Os duendes de fato aparecem e levam o menino embora, e Sarah terá até a meia-noite para chegar no palácio de Jareth e recuperar a criança, senão, ele será transformado em duende.

O Brasil bebeu na fonte, claro, e em 1988 tivemos nossa versão tupiniquim, Super Xuxa Contra o Baixo Astral, desprovida de todas as sutilezas da grande fábula de Hernderson. As próprias adaptações feitas na história já dizem muito: em vez de ser seu irmão que é capturado, é o cachorro de Xuxa que é levado pelos duendes, liderados por Guilherme Karan que nem fazendo bem o papel de Baixo Astral conseguiu salvar o filme. A relação ambígua de conflito e sedução entre a mocinha e o vilão está mantida e, sabendo do passado então recente de Xuxa em filmes de outro genêro os gemidos dela pelo seu Xuxo ficam uma coisa quase de mau gosto para o espectador adulto. Sem contar que a atuação da Xuxa já é por si só uma coisa sofrível, a despeito do sucesso de bilheteria e do Kikito que ela tenha recebido e agradecido com toques de esnobação em 2009.

Voltemos, porém, ao Labirinto, lançado em 1986. Ícone de uma geração, David Bowie aparece em todo o esplendor daquela cabeleira loira armada, com muita maquiagem nos olhos e roupas de couro. Em meio a toda a lixeira que se produziu nos anos 80 – como aliás em todas as décadas da cultura de massa antes e depois da década perdida – estávamos em boa companhia. Quem não ia ficar feliz de ver seus filhos assistindo um filme em que o vilão é David Bowie em vez de ver o dinossauro roxo do Barney (ou a Xuxa)?

Para chegar ao palácio de Jareth, Sarah terá que passar por um labirinto, onde as paredes mudam de lugar e há enigmas para resolver. Em um dado momento, Jareth tenta enfeitiçar Sarah com a ilusão de um baile em que ela é o centro das atenções e eles dançam As The World Falls Down. Sarah percebe que está sendo enfeitiçada vê um relógio e se lembra de que precisa salvar seu irmão, mas para escapar do baile precisa quebrar uma parede de espelho. O filme é cheio de momentos assim, que são alegorias de temas importantes para os adolescentes e mesmo para as crianças. Quando ela usa uma cadeira para quebrar a parede espelhada desse mundo mágico onde existe a possibilidade de se deixar seduzir por Jareth, é como se ela percebesse que há coisas importantes a serem feitas, não é possível morar nos devaneios agradáveis. Agradáveis, aliás, somente em certa medida, porque existe algo de sombrio nesse baile de máscaras onde as pessoas se voltam todas para ela e vão fechando um círculo em torno dela e de Jareth. O preço de salvar aquilo que amamos ou conquistar o que queremos muitas vezes inclui estilhaçar a imagem que criamos de nós mesmos, perder o baile e o parceiro e o vestido de princesa bufante (que diga-se de passagem é igualzinho ao vestido de baile que uma de minhas tias usava nessa mesma época, com muito gel no cabelo!)

Em outra cena emblemática, Sarah vai parar em uma espécie de depósito de lixo, um lugar cheio de tranqueiras.  Ali encontra uma “carroceira”, que carrega todo tipo de objeto consigo. Sarah diz a ela que estava procurando uma coisa, mas não conseguia se lembrar do que. A criatura lhe mostra então uma réplica de seu quarto, com todos os seus bichinhos de pelúcia, incluindo o urso Lancelot, do qual Sarah tinha muitos ciúmes (no início do filme, ela se irrita com o irmãozinho ao encontrar Lancelot no quarto dele). Por um instante, Sarah está satisfeita de estar de volta a seu quarto (embora ele esteja no meio do tal lixão) com seus objetos pessoais, mas então percebe que não é exatamente isso que estava procurando. Novamente ela tem que ir buscar fora de seu refúgio aquilo que é importante. Aquele quarto em meio ao lixão não é seu quarto verdadeiro, somente uma imagem dele. Decidir ficar ali seria se isolar do mundo – em volta só há objetos abandonados – essa não é uma opção possível para quem já saiu do quarto uma vez.

O embate final entre Sarah e Jareth acontece no palácio dele, inspirado nos desenhos de Escher – escadas que não levam a lugar nenhum, andares que ficam de ponta-cabeça. As ilusões criadas por Escher no papel já são fascinantes para as crianças e os adultos, e a transposição para o cinema deu certo, manteve o climax do filme à altura do labirinto. Jareth tenta convencer Sarah a ficar lá com ele e desistir de levar seu irmão de volta, mas a proposta, apesar de tentadora (é o David Bowie!), não é aceita, e ela quebra o encanto ao recitar as palavras finais do livro que estava lendo no início do filme quando fez seu irmão desaparecer – “você não tem poder algum sobre mim!” Ao dizer isso, Sarah e seu irmão aparecem de volta em casa. É o momento em que Sarah conquista de vez sua independência, o poder sobre si mesma. E então seu irmão não precisa mais ser um problema do tamanho que era no início, já que ela deixou para trás o que ela própria ainda tinha de bebê impotente.

Labirinto foi um fracasso de bilheteria, mas ganhou ao longo dos anos o status de filme cult. Olhando com o recuo de duas décadas, tanto quanto minha afeição permite recuar, mantenho que é um bom filme – apesar de seus efeitos especiais terem ficado inevitavelmente obsoletos. Se não pela simbólica passagem para a vida adulta, vale assistí-lo se você gosta de David Bowie, ou dos outros trabalhos de Jim Henson (esse foi seu último filme antes da morte por pneumonia em 1990).