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Só muda de endereço (e umas coisinhas mais)

Acontece que quando você muda de país, a sua vida no seu país de origem, que era simplesmente a vida como você conhecia, passa a ser isso – a sua vida no seu país de origem. Então tudo o que você fazia e as pessoas que você via e os seus hábitos mais simples, como tomar chá no sofá lendo o jornal, passam a fazer parte daquele conjunto de coisas que era o seu país para você. A saudade de casa então vira um saco de gatos, tem de tudo lá dentro, pessoas, lugares, aulas, encontros, sua mesa no escritório, os almoços com amigos, o ponto de ônibus… até a lavanderia que alagava quando chovia entra na amálgama de saudade, porque lá no Brasil você podia ter uma lavanderia com uma janela que não fechasse completamente nunca, já que a temperatura nunca caía abaixo de 10 graus.

Você não é como as demais pessoas que estão nas ruas da sua nova cidade. Algumas coisas surpreendem de forma positiva, outras nem um pouco. Você não é dali, é brasileiro, mas o que é que isso quer dizer? Pra saber, você tem que pensar em tudo aquilo quer você deixou para trás. Ah, mas ser brasileiro é ler as crônicas do Marcelo Rubens Paiva curtindo uma preguiça no sábado de manhã? Separar o lixo reciclável mesmo sem ser obrigado e lotar o porta-malas do carro para levar no Pão de Açúcar? Deixar passar quatro ônibus lotados antes de conseguir entrar no seu? Aproveitar a hora do almoço para dar risada com os amigos e enrolar tanto quanto possível para esticar esse momento, inventando pausa para o café, mesmo se você não estiver particularmente a fim de tomar café? Se sentir péssimo de ver as crianças pedindo dinheiro no farol e saber que mesmo se você der o dinheiro ele vai parar na mão de um explorador que deveria estar na cadeia?

Pode ser tudo isso, mas no final é só porque a sua vida era assim. Não porque isso seja algo da identidade brasileira. Mesmo assim, as pessoas aqui são diferentes. Elas nunca vão entender como é que uma cidade pode se tornar o monstrengo que São Paulo virou. Como é que pode ter tanta criança fora da escola. Nem como é que as pessoas podem se cumprimentar com beijos no rosto ao serem apresentadas umas às outras. E elas não fazem a menor ideia de quanto é doído para você ver o seu país caminhando na contra mão, cometendo graves ofensas à liberdade de imprensa, e mostrando que ser brasileiro, afinal, é engolir todo tipo de falcatrua e impunidade – e ai de quem for protestar no seu direito de cidadão, a tropa de choque espera com cassetete na mão em cima dos cavalos, supostamente para defender o “direito de ir e vir”. Tout compte fait, não dá para ter nostalgia do que é ser brasileiro, já que o sentimento pelo seu país é permeado por essa raiva de que as coisas sejam tão mal geridas… é bem ilustrativo o diálogo que eu tive com a balconista do Consulado:

“É melhor você não transferir seu título. Fica com o seu título do Brasil e daí é só você justificar pela internet no dia da eleição. Se você transferir seu título, você só vai poder votar pra presidente.”

“Mas moça, eu quero votar para presidente, é por isso que eu estou aqui.”

A cara da mulher era de quem nunca tinha ouvido isso antes, mais ou menos, “de que planeta você veio?”

Algumas coisas, afinal, não mudam nada por você estar longe do seu país natal. Você continua indignado. Só que longe dos amigos e da família.