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Tony Wilson era o cara

Fiquei conhecendo essa figura ao assistir em 2003 a biografia um tanto romanceada em que Steve Coogan interpreta Tony Wilson. O título em português é A Festa Nunca Termina, mas prefiro o original 24 Hour Party People, que transmite com mais acuidade o ritmo alucinado da cena musical de Manchester na virada dos 70s para os 80s. Lembro bem de quando vi o filme pela primeira vez. Eu não esperava nada do filme, era só um jeito de passar o sábado à tarde cercada de guloseimas, competindo quem comia mais calorias em uma sala do Unibanco Artplex ao lado de meu fiel escudeiro Eduardo. Só que fiquei realmente impressionada, adorei a história do jornalista que resolve produzir as bandas nascentes de Manchester e acaba lançando nada mais nada menos do que Joy Division, o futuro New Order. Além da gravadora Factory Records, Wilson abriu um lendário clube chamado Hacienda, onde havia espaço para as bandas novatas e onde, segundo o filme, pela primeira vez o público aplaudiu não a música, não os músicos, mas sim o meio – o DJ. Dá até arrepio só de pensar nesse momento histórico.

Não sei se eu gosto é do próprio Tony Wilson, ou se é do Steve Coogan, ou ainda se é do Tony Wilson que o Steve Coogan criou. Sei que meu coração apertou quando em 2007 ouvi no rádio a notícia da morte de Wilson. Ironia, eu estava no carro indo fazer minha matrícula na secretaria da PUC em um curso que se chamava justamente Comunicação e Pós Modernidade, bem o tipo de coisa que ele teria gostado de discutir. Ele trabalhou até o fim da vida como jornalista, na TV e no rádio. Foi em seu programa na TV Granada So it goes que os Sex Pistols fizeram sua primeira aparição na TV, em 1976.

A linguagem meio pedante do Wilson (ou seria do Coogan?) – o modo como ele fica citando autores e conceitos de filosofia enquanto apresenta programas de televisão ou conversa com as bandas me fez identificar imediatamente com ele. Ele pode parecer um chato, mas pessoalmente acho que Wilson citava Boécio enquanto apresentava a Roda da Fortuna porque era um sujeito que tinha prazer no conhecimento e gostava de encaixar isso no dia a dia para saborear melhor o mundo. Sem contar no efeito altamente irônico de ficar fazendo filosofia em cima do entretenimento de massa.

Por aquilo que podemos ver dele no You Tube, o Wilson de verdade parecia ser mais doce do que o criado por Coogan. Ele não parece ter tido aquele ar de superioridade que vemos em 24 Hour Party People. Mas aí é bom lembrar que ele próprio ajudou a escrever o roteiro do filme, e fez até uma pontinha como editor, numa cena em que manda cortar todo o blá-blá-blá filosófico com que Wilson introduz a Roda da Fortuna. Deve ter boa dose de verdade no Wilson de Coogan, ou no mínimo a imagem que Wilson tinha ou gostaria de ter de si próprio.

Não falta no filme um humor bem britânico, enquanto acompanhamos Wilson irritado ao ser escalado para matérias de fait divers (ele protesta que não estudou em Cambridge para cobrir assuntos como um anão dando banho em um elefante) e seus relacionamentos e desentendimentos com figuras da música. Impagável a cena em que Wilson, o produtor Martin Hannett e o resto do Joy Division largam o baterista tocando no telhado do estúdio e vão embora. E o quer dizer do vocalista do Happy Mondays que, muito louco de ácido, sequestra a fita com as faixas do novo álbum e pede resgate?

Tony Wilson era um idealista tão persistente que chegava quase à ingenuidade. Ele nunca ganhou nenhum dinheiro com o Hacienda ou com a Factory Records, e acabou tendo que se desfazer de ambos. Quando no filme ele vende a Factory para a London Records, os caras de Londres não acreditam que o contrato (escrito com sangue de Wilson) assinado entre a Factory e as bandas previa que a gravadora não detinha direitos sobre nada. O negócio de Wilson era produzir música, não ganhar dinheiro com ela.

Ele sentiu o que era viver à risca o lema “algumas pessoas fazem dinheiro, outras fazem história”. Fiel a suas posições políticas, nunca quis fazer seguro de saúde privado, e teve que batalhar com o sistema de saúde público britânico para obter tratamento quando ficou doente. Se alguém se sentia tentado a torná-lo motivo de piada por suas escolhas idealistas, tenho certeza de que ninguém riu quando ele morreu. Tantos anos de consistência trouxeram respeito por ele, que é uma peça indispensável para contar a história do rock britânico.

Só mais um adendo: Steve Coogan

Tendo dito isso sobre o filme e sobre o Tony Wilson, resta dizer que Steve Coogan é um ator que me intriga. Ele é sempre marcante nos seus papéis. Depois de 24 Hour Party People, vi Coffee and Cigarettes, do Jim Jarmusch, onde Coogan interpreta a si mesmo e está maravilhosamente insuportável! Ele trata o Alfred Molina com tanto desprezo que só pode ser uma antítese do comportamento real dele, não consigo imaginar o cara sendo escalado para fazer um papel de idiota na própria pele a não ser que ele fosse o completo oposto. Depois, ele fez o embaixador Mercy em Maria Antonieta, que tenta em vão chamar a atenção da delfina para as questões delicadas de diplomacia enquanto ela, adolescente, está preocupada com rendas, sapatos e arranjos de cabelo. Adoro quando Maria Antonieta se recusa a falar com a amante de Luís XV, alegando que ela é uma prostituta, e Mercy a repreende chocado: “your royal highness!” O diplomata, mais velho, experiente, tem que se dirigir à delfina com essa pomposa fórmula de tratamento, mesmo que seja para censurá-la. Finalmente Coogan é o protagonista de um dos meus filmes favoritos, Hamlet 2, em que interpreta um professor de teatro frustrado em uma pequena cidade no Arizona que decide encenar uma continuação da peça de Shakespeare, escrita de próprio punho, para tentar salvar o curso de teatro da extinção e espantar fantasmas de sua infância.