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O que passou passou

Ontem assisti Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida pela primeira vez em muitos anos. Tenho uma afeição especial pela série do Indiana, como pela trilogia do De Volta Para o Futuro, são filmes que assisti à exaustão na infância, sabia as falas de cor (da versão dublada, já que a TV não transmitia com legenda e na locadora alugava-se a fita – lembram dela? – que não tinha opção de áudio).

Antes de o filme começar fiz uma breve explicação para meu marido sobre o que era a Arca da Aliança, porque ele nunca leu nadinha nem do Novo nem do Antigo Testamento – nessas horas me dou conta de que a educação religiosa que recebi faz as vezes de cultura geral também, embora eu tenha certeza de que não era exatamente o Indiana Jones que a minha avó tinha em mente enquanto me ensinava passagens da Bíblia.

Na minha lembrança Os Caçadores… era um filme ótimo, cheio de ação e capaz de dar alguns sustos. Fiquei um pouco decepcionada. Revisitado 29 anos após o lançamento o filme tem vilões que são uns docinhos perto do que vimos depois disso. Talvez eu não devesse ter em mente como base de comparação o Coringa do Heath Ledger, mas seria tão fora de propósito comparar os dois, sendo que ambos são filmes de ação feitos para o grande público, de grande bilheteria? Tudo bem, estamos falando de um filme de Spielberg, sempre tem aquelas pitadas de ingenuidade em seu trabalho, porém, mesmo tomando ele próprio como base de comparação, as adversidades dos Caçadores parecem sopa no mel perto do que acontece em Minority Report, realizado 21 anos depois.

Não quer dizer que eu tenha deixado de gostar do filme, o Indiana não perdeu nem um tiquinho do espaço que ocupa na minha memória afetiva. Como tantas outras crianças, eu quis ser arqueóloga depois de ver seus filmes. Além de querer imitar o Dr Jones, eu tinha como motivação nessa minha primeira inspiração vocacional as aulas em que estudávamos os dinossauros na pré-escola, que para mim eram cercadas de mistério: era como um momento de revelação do grande plano divino os minutos em que sentávamos em roda no chão da classe para ouvir a professora falando sobre aqueles bichos enormes e pregando com tachinhas as ilustrações de cada espécie no mural. Não tinha muita diferença entre aprender sobre os dinossauros e aprender sobre a Arca da Aliança. Talvez os dinossauros inspirassem mais temor, só isso. (Pretendo contar mais sobre esse meu fascínio palentológico precoce em outro post).

O que ficou claro para mim foi que o Indiana Jones guarda mais do seu valor por aquilo que representa no tecido biográfico das pessoas que cresceram vendo e revendo a saga do que pela obra em si. Aliás, uma armadilha isso que acabei de dizer, porque é difícil, senão impossível, falar da obra em si. Nem o Cavaleiro das Trevas tem significado fora de contexto. Enfim, o que estou querendo dizer talvez seja que, como cinema, a rigor, Os Caçadores da Arca Perdida seja mediano. Na cena em que Indiana luta contra os nazistas enquanto dirige o caminhão em que está a Arca, o mesmo recurso é usado repetidas vezes contra os inimigos (jogar o caminhão para o lado para desestabilizar o jipe do inimigo e os soldados que se penduram na lona do caminhão tentando chegar à cabine). Enquanto os egípcios que ele contratou cavam um buraco para chegar ao Poço das Almas, Indiana tira a túnica que estava usando para se disfarçar e fica ali dando sopa, de chapéu e tudo. Esse é o tipo de ingenuidade de que estou falando. Mas ele se eleva à altura de um personagem que tem nuanças suficientes quando ameaça explodir a Arca e recua depois que Belloq o desafia a cumprir a ameaça.

Cabe observar que o caráter de Indiana Jones não é o mais límpido que já se viu – ele saqueia sítios arqueológicos pelo mundo, sendo frequentemente trapaceado por outros aventureiros tão caras de pau quanto ele. Agradeço meus pais por não terem censurado esses filmes (nem sei se eles se davam conta dos problemas morais do Jones). Nos tempos atuais, em que paradoxalmente boa parte do que se produz para o público infantil oscila entre conteúdo edulcorado e incitação a uma sexualidade precoce, um herói complexo como o Jones pode ser um contraponto bem vindo. De qualquer forma, quando chega a hora do embate principal, ele está sempre do lado do bem: combate os nazistas e os exploradores da população miserável da Índia.

Provavelmente eu esteja levando o primeiro Indiana Jones mais a sério do que ele próprio se pretendia. Olhando de relance o verbete sobre ele na Wikipedia, vi que havia restrições de orçamento, e tudo foi filmado rapidamente, em poucos takes, num estilo “quick and dirty”. Mesmo assim, o sucesso na bilheteria foi retumbante, e até indicação para Oscar de melhor filme eles receberam (perderam para Carruagens de Fogo que, ironicamente, levou a estatueta mas não resistiu ao passar do tempo). Pode ser que, quase sem querer, Lucas e Spielberg tenham inaugurado um novo estilo de filme de ação – a década de 80 foi a década dos filmes de ação – e criado esse personagem que serve como uma alegoria bem humorada dos norte-americanos: estão sempre metendo o nariz por toda parte, muitas vezes expropriando países pobres de coisas que lhes são caras (recursos naturais, ou relíquias arqueológicas, como queiram), divertindo-se com belas mulheres e comprando muita briga no meio do caminho, porém sempre vencendo os corações de todo mundo pelo charme, e ainda pela defesa de ideais maiores do que seus pecadinhos veniais.

Conclusão: quando sentar hoje à noite em frente à TV para assistir Indiana Jones e o Templo da Perdição, não vou exigir nada além daquilo que esperava desse filme quando tinha sete ou oito anos: somente o deleite de ver o Harrison Ford novinho lutando contra os malvados e os arrepios provocados pelo jantar composto por surpresa de cobra, insetos cozidos e cérebros frescos de macaco. E dessa vez vou tentar não perder o sono por causa do ritual bizarro que envolve retirar o coração do marajá, como sempre acontecia para desespero da minha mãe, embora minha irmã e eu prometêssemos que “não ficaríamos com medo dessa vez”. Viu, mãe, prometo que não vou te acordar no meio da noite por causa do Indiana Jones! Já para o meu marido não posso garantir o mesmo…

David Bowie para crianças

Dirigido por Jim Henson, o mesmo que foi responsável pelo sucesso dos Muppets, e produzido por George Lucas, Labirinto foi um filme-chave para as crianças dos anos 80. David Bowie é o grande vilão Jareth, rei dos duendes. Jennifer Connelly é Sarah, uma adolescente que tem que ficar de baby sitter de seu meio irmão quando o pai e a madrasta saem uma noite. Ela se irrita com o bebê chorão e declama versos de uma peça que está lendo, que convocam os duendes para levar o bebê. Os duendes de fato aparecem e levam o menino embora, e Sarah terá até a meia-noite para chegar no palácio de Jareth e recuperar a criança, senão, ele será transformado em duende.

O Brasil bebeu na fonte, claro, e em 1988 tivemos nossa versão tupiniquim, Super Xuxa Contra o Baixo Astral, desprovida de todas as sutilezas da grande fábula de Hernderson. As próprias adaptações feitas na história já dizem muito: em vez de ser seu irmão que é capturado, é o cachorro de Xuxa que é levado pelos duendes, liderados por Guilherme Karan que nem fazendo bem o papel de Baixo Astral conseguiu salvar o filme. A relação ambígua de conflito e sedução entre a mocinha e o vilão está mantida e, sabendo do passado então recente de Xuxa em filmes de outro genêro os gemidos dela pelo seu Xuxo ficam uma coisa quase de mau gosto para o espectador adulto. Sem contar que a atuação da Xuxa já é por si só uma coisa sofrível, a despeito do sucesso de bilheteria e do Kikito que ela tenha recebido e agradecido com toques de esnobação em 2009.

Voltemos, porém, ao Labirinto, lançado em 1986. Ícone de uma geração, David Bowie aparece em todo o esplendor daquela cabeleira loira armada, com muita maquiagem nos olhos e roupas de couro. Em meio a toda a lixeira que se produziu nos anos 80 – como aliás em todas as décadas da cultura de massa antes e depois da década perdida – estávamos em boa companhia. Quem não ia ficar feliz de ver seus filhos assistindo um filme em que o vilão é David Bowie em vez de ver o dinossauro roxo do Barney (ou a Xuxa)?

Para chegar ao palácio de Jareth, Sarah terá que passar por um labirinto, onde as paredes mudam de lugar e há enigmas para resolver. Em um dado momento, Jareth tenta enfeitiçar Sarah com a ilusão de um baile em que ela é o centro das atenções e eles dançam As The World Falls Down. Sarah percebe que está sendo enfeitiçada vê um relógio e se lembra de que precisa salvar seu irmão, mas para escapar do baile precisa quebrar uma parede de espelho. O filme é cheio de momentos assim, que são alegorias de temas importantes para os adolescentes e mesmo para as crianças. Quando ela usa uma cadeira para quebrar a parede espelhada desse mundo mágico onde existe a possibilidade de se deixar seduzir por Jareth, é como se ela percebesse que há coisas importantes a serem feitas, não é possível morar nos devaneios agradáveis. Agradáveis, aliás, somente em certa medida, porque existe algo de sombrio nesse baile de máscaras onde as pessoas se voltam todas para ela e vão fechando um círculo em torno dela e de Jareth. O preço de salvar aquilo que amamos ou conquistar o que queremos muitas vezes inclui estilhaçar a imagem que criamos de nós mesmos, perder o baile e o parceiro e o vestido de princesa bufante (que diga-se de passagem é igualzinho ao vestido de baile que uma de minhas tias usava nessa mesma época, com muito gel no cabelo!)

Em outra cena emblemática, Sarah vai parar em uma espécie de depósito de lixo, um lugar cheio de tranqueiras.  Ali encontra uma “carroceira”, que carrega todo tipo de objeto consigo. Sarah diz a ela que estava procurando uma coisa, mas não conseguia se lembrar do que. A criatura lhe mostra então uma réplica de seu quarto, com todos os seus bichinhos de pelúcia, incluindo o urso Lancelot, do qual Sarah tinha muitos ciúmes (no início do filme, ela se irrita com o irmãozinho ao encontrar Lancelot no quarto dele). Por um instante, Sarah está satisfeita de estar de volta a seu quarto (embora ele esteja no meio do tal lixão) com seus objetos pessoais, mas então percebe que não é exatamente isso que estava procurando. Novamente ela tem que ir buscar fora de seu refúgio aquilo que é importante. Aquele quarto em meio ao lixão não é seu quarto verdadeiro, somente uma imagem dele. Decidir ficar ali seria se isolar do mundo – em volta só há objetos abandonados – essa não é uma opção possível para quem já saiu do quarto uma vez.

O embate final entre Sarah e Jareth acontece no palácio dele, inspirado nos desenhos de Escher – escadas que não levam a lugar nenhum, andares que ficam de ponta-cabeça. As ilusões criadas por Escher no papel já são fascinantes para as crianças e os adultos, e a transposição para o cinema deu certo, manteve o climax do filme à altura do labirinto. Jareth tenta convencer Sarah a ficar lá com ele e desistir de levar seu irmão de volta, mas a proposta, apesar de tentadora (é o David Bowie!), não é aceita, e ela quebra o encanto ao recitar as palavras finais do livro que estava lendo no início do filme quando fez seu irmão desaparecer – “você não tem poder algum sobre mim!” Ao dizer isso, Sarah e seu irmão aparecem de volta em casa. É o momento em que Sarah conquista de vez sua independência, o poder sobre si mesma. E então seu irmão não precisa mais ser um problema do tamanho que era no início, já que ela deixou para trás o que ela própria ainda tinha de bebê impotente.

Labirinto foi um fracasso de bilheteria, mas ganhou ao longo dos anos o status de filme cult. Olhando com o recuo de duas décadas, tanto quanto minha afeição permite recuar, mantenho que é um bom filme – apesar de seus efeitos especiais terem ficado inevitavelmente obsoletos. Se não pela simbólica passagem para a vida adulta, vale assistí-lo se você gosta de David Bowie, ou dos outros trabalhos de Jim Henson (esse foi seu último filme antes da morte por pneumonia em 1990).

Tony Wilson era o cara

Fiquei conhecendo essa figura ao assistir em 2003 a biografia um tanto romanceada em que Steve Coogan interpreta Tony Wilson. O título em português é A Festa Nunca Termina, mas prefiro o original 24 Hour Party People, que transmite com mais acuidade o ritmo alucinado da cena musical de Manchester na virada dos 70s para os 80s. Lembro bem de quando vi o filme pela primeira vez. Eu não esperava nada do filme, era só um jeito de passar o sábado à tarde cercada de guloseimas, competindo quem comia mais calorias em uma sala do Unibanco Artplex ao lado de meu fiel escudeiro Eduardo. Só que fiquei realmente impressionada, adorei a história do jornalista que resolve produzir as bandas nascentes de Manchester e acaba lançando nada mais nada menos do que Joy Division, o futuro New Order. Além da gravadora Factory Records, Wilson abriu um lendário clube chamado Hacienda, onde havia espaço para as bandas novatas e onde, segundo o filme, pela primeira vez o público aplaudiu não a música, não os músicos, mas sim o meio – o DJ. Dá até arrepio só de pensar nesse momento histórico.

Não sei se eu gosto é do próprio Tony Wilson, ou se é do Steve Coogan, ou ainda se é do Tony Wilson que o Steve Coogan criou. Sei que meu coração apertou quando em 2007 ouvi no rádio a notícia da morte de Wilson. Ironia, eu estava no carro indo fazer minha matrícula na secretaria da PUC em um curso que se chamava justamente Comunicação e Pós Modernidade, bem o tipo de coisa que ele teria gostado de discutir. Ele trabalhou até o fim da vida como jornalista, na TV e no rádio. Foi em seu programa na TV Granada So it goes que os Sex Pistols fizeram sua primeira aparição na TV, em 1976.

A linguagem meio pedante do Wilson (ou seria do Coogan?) – o modo como ele fica citando autores e conceitos de filosofia enquanto apresenta programas de televisão ou conversa com as bandas me fez identificar imediatamente com ele. Ele pode parecer um chato, mas pessoalmente acho que Wilson citava Boécio enquanto apresentava a Roda da Fortuna porque era um sujeito que tinha prazer no conhecimento e gostava de encaixar isso no dia a dia para saborear melhor o mundo. Sem contar no efeito altamente irônico de ficar fazendo filosofia em cima do entretenimento de massa.

Por aquilo que podemos ver dele no You Tube, o Wilson de verdade parecia ser mais doce do que o criado por Coogan. Ele não parece ter tido aquele ar de superioridade que vemos em 24 Hour Party People. Mas aí é bom lembrar que ele próprio ajudou a escrever o roteiro do filme, e fez até uma pontinha como editor, numa cena em que manda cortar todo o blá-blá-blá filosófico com que Wilson introduz a Roda da Fortuna. Deve ter boa dose de verdade no Wilson de Coogan, ou no mínimo a imagem que Wilson tinha ou gostaria de ter de si próprio.

Não falta no filme um humor bem britânico, enquanto acompanhamos Wilson irritado ao ser escalado para matérias de fait divers (ele protesta que não estudou em Cambridge para cobrir assuntos como um anão dando banho em um elefante) e seus relacionamentos e desentendimentos com figuras da música. Impagável a cena em que Wilson, o produtor Martin Hannett e o resto do Joy Division largam o baterista tocando no telhado do estúdio e vão embora. E o quer dizer do vocalista do Happy Mondays que, muito louco de ácido, sequestra a fita com as faixas do novo álbum e pede resgate?

Tony Wilson era um idealista tão persistente que chegava quase à ingenuidade. Ele nunca ganhou nenhum dinheiro com o Hacienda ou com a Factory Records, e acabou tendo que se desfazer de ambos. Quando no filme ele vende a Factory para a London Records, os caras de Londres não acreditam que o contrato (escrito com sangue de Wilson) assinado entre a Factory e as bandas previa que a gravadora não detinha direitos sobre nada. O negócio de Wilson era produzir música, não ganhar dinheiro com ela.

Ele sentiu o que era viver à risca o lema “algumas pessoas fazem dinheiro, outras fazem história”. Fiel a suas posições políticas, nunca quis fazer seguro de saúde privado, e teve que batalhar com o sistema de saúde público britânico para obter tratamento quando ficou doente. Se alguém se sentia tentado a torná-lo motivo de piada por suas escolhas idealistas, tenho certeza de que ninguém riu quando ele morreu. Tantos anos de consistência trouxeram respeito por ele, que é uma peça indispensável para contar a história do rock britânico.

Só mais um adendo: Steve Coogan

Tendo dito isso sobre o filme e sobre o Tony Wilson, resta dizer que Steve Coogan é um ator que me intriga. Ele é sempre marcante nos seus papéis. Depois de 24 Hour Party People, vi Coffee and Cigarettes, do Jim Jarmusch, onde Coogan interpreta a si mesmo e está maravilhosamente insuportável! Ele trata o Alfred Molina com tanto desprezo que só pode ser uma antítese do comportamento real dele, não consigo imaginar o cara sendo escalado para fazer um papel de idiota na própria pele a não ser que ele fosse o completo oposto. Depois, ele fez o embaixador Mercy em Maria Antonieta, que tenta em vão chamar a atenção da delfina para as questões delicadas de diplomacia enquanto ela, adolescente, está preocupada com rendas, sapatos e arranjos de cabelo. Adoro quando Maria Antonieta se recusa a falar com a amante de Luís XV, alegando que ela é uma prostituta, e Mercy a repreende chocado: “your royal highness!” O diplomata, mais velho, experiente, tem que se dirigir à delfina com essa pomposa fórmula de tratamento, mesmo que seja para censurá-la. Finalmente Coogan é o protagonista de um dos meus filmes favoritos, Hamlet 2, em que interpreta um professor de teatro frustrado em uma pequena cidade no Arizona que decide encenar uma continuação da peça de Shakespeare, escrita de próprio punho, para tentar salvar o curso de teatro da extinção e espantar fantasmas de sua infância.

Sessão da tarde

Um clássico, um lixo. A Vingança dos Nerds já começa com esse nome meio cômico, que não deixa a dever aos títulos dramáticos dos seus colegas na televisão aberta vespertina dos anos 80 e 90 (O ataque dos vermes malditos, o ataque das abelhas assassinas, o ataque das cobras e todos os outros tipo de ataque por animais os mais variados). Assisti novamente outro dia – pela primeira vez do começo ao fim e depois de adulta – e, como gosto de refletir sobre virtualmente qualquer coisa, resolvi fazer alguns comentários aqui.

Só o espaço que o filme conquistou na lembrança de quem viveu os anos 80 (a geração-apartamento que não tinha TV a cabo ou internet o assistiu à exaustão) já faz com que alguma relevância ele tenha. Pode ser muito podre, mas deve ter sido parcialmente responsável pela difusão do estereótipo do nerd. Não que o estereótipo seja bom, mas é um fenômeno de alguma importância, ainda mais considerando que, já nos anos 90, os nerds do filme pareciam ter passado sua mensagem e ser nerd era uma bandeira defendida com unhas e dentes pelos garotos e garotas que usavam óculos, tinham um senso particular da moda e eram “teacher’s pet”, ou seja, o perfeito cdf (entre os quais me incluía eu mesma e mais um bom punhado de colegas).

Além disso, os nerds foram os pioneiros do Big Brother, ao colocarem câmeras escondidas na casa da irmandade das meninas bonitas e populares, que haviam sido responsáveis pelo fracasso da primeira festa da irmandade dos nerds (lambda lambda lambda). Com um equipamento digno de Missão Impossível, eles invadem a casa e usam seu conhecimento em tecnologia para instalar câmeras que transmitem ao vivo tudo que acontece dentro da casa das meninas. Resultado: os nerds passam uma noite inteira acordados em frente à TV olhando as meninas tomarem banho, se trocarem, fofocarem, e sabe-se lá mais o que. Ao ver isso, imediatamente me lembrei das pessoas que compram pay per view do Big Brother para poder assistir a qualquer hora do dia e da noite a suposta intimidade alheia.

Uma contribuição da Vingança dos Nerds para a cultura popular brasileira (universitária paulistana, em todo caso) são as modalidades esportivas do torneio entre irmandades. A Poli, reduto nerd por excelência em São Paulo, tem em suas Olimpíadas a famosa corrida de triciclo com cerveja, em que os marmanjos saem pedalando um triciclo infantil e a cada volta completada tem que tomar uma latinha de cerveja. Ganha quem conseguir continuar pedalando por mais tempo. Outras modalidades praticadas em jogos universitários de São Paulo, como o campeonato de par ou ímpar, não aparecem no filme e parecem ser inovações brasileiras mesmo (com potencial para serem exportadas).

Ao final do filme todos parecem se identificar com os nerds, e somente os trogloditas do time de futebol americano ficam de fora. Pode ser meio pretensioso, mas o filme talvez tenha sido o primeiro passo em direção ao combate ao bullying, tão em voga hoje. Claro que, no filme, os nerds revidam fogo com fogo: instalam as câmeras na casa das meninas, colocam uma substância nos uniformes dos jogadores de futebol que provoca coceira nos genitais, e um dos líderes nerds faz sexo com a cheer leader fantasiado de Darth Vader (quer mais nerd do que isso?), fazendo-se passar pelo namorado dela. O essencial, no entanto, é que eles se recusam a ser excluídos e maltratados por serem “diferentes”.