Arquivo da categoria: No verso do guardanapo

Pensamentos passageiros, apontamentos cotidianos… assuntos de mesa de bar, ou rabiscados em qualquer pedaço de papel disponível no momento.

Havia um nó no seu cabelo, bem atrás da nuca.

Puxou os fios pacientemente, mas o nó não soltava. Se ela insistia, o fio quebrava.

Pegou a tesoura da cozinha e cortou os cabelos que estavam presos ao nó. Examinou-o de perto. Como aquilo podia ter se formado na sua própria cabeça? Como não tinha visto antes? Parecia algo que precisaria de vários dias sem pentear os cabelos para se formar. Ela não se lembrava de não os ter penteado.

Os cabelos iam, se embolavam e vinham de volta fazendo argolas ovais em torno do nó. Ficou ali uns minutos, desatando os fios, como se houvesse alguma promessa de revelação, algum objeto estranho que fosse o responsável por aquela maçaroca. Os fios saíam do nó amassados, com dobras em ângulos, completamente diferentes do resto do cabelo, que era liso. No final, eram somente fios de cabelo, alguns enrolados em espiral em volta do ninho central.

Tinha gente que era capaz de prender o cabelo fazendo um grande nó com ele, como se fosse uma corda. Com o dela não funcionava, escorria tudo. Nó mesmo, só esses que se formavam escondidos por baixo de tudo, de um jeito que ela não compreendia.

Leitura subversiva ou: centímetros a menos na barra da saia

Ontem fiz uma coisa desonesta.

Fui à biblioteca buscar um livro para ler na piscina. Depois de vários minutos examinando as prateleiras e meio cansada de tentar adivinhar se os livros eram bons somente pelo título, acabei escolhendo um romance epistolar que tinha visto outro dia na prateleira dos best sellers da livraria. Romance epistolar quer dizer que a história toda é contada através da correspondência entre os personagens. Tentador, quem não gosta de bisbilhotar a correspondência alheia, mesmo que seja de pessoas fictícias? Um dos livros que mais amo é a correspondência entre a Clarice Lispector e o Fernando Sabino. Me faz sentir pertinho da Clarice, como se eu, e não o Fernando, fosse a interlocutora dela.

Bom, chegando na piscina, abri o livro e comecei a ler bem pacientemente, mas não aguentei acompanhar as várias histórias paralelas e decidi ler só as cartas entre os personagens que pareciam estar apaixonados um pelo outro. Fiz isso como quem cola na prova de matemática, parece algo proibido. Lembro que um professor que tive na Faculdade de Filosofia dizia que só os romances são para serem lidos do começo ao fim, com livros de Filosofia a gente não tem essa obrigação, pode pular capítulos. Ouvir aquilo me deu um alívio, era tão bom estar dispensada de ter que ler todas as páginas de todos os livros que eu havia começado na vida! Mas o meu comportamento ontem já estava empurrando a máxima para lá daquela fronteira – eu estava cometendo o crime dos crimes, ler um romance fora de ordem, ou pior ainda, faltando com o respeito aos demais personagens, só me importando com o par romântico.

Bem feito para mim, lá pela metade do livro descobri que o mocinho era gay e que a mocinha já sabia desde o princípio, a única que não sabia era eu, que segui as pistas das autoras do livro tal aqueles cães de orelhas compridas que no desenho animado vão farejando até toparem com o pé da pessoa que estavam procurando, sendo que teria sido mais fácil simplesmente olhar para cima em vez de grudar o nariz no chão. Enfim, tão logo o mocinho ideal se revelou gay, apareceu outro candidato a galã, até mais interessante que o primeiro. Dessa vez, escaldada pelo papelão que fiz, retomei a leitura de carta a carta, dando a mesma atenção para todos.

Quando li Orgulho e Preconceito, foi a mesma coisa, tanta ansiedade que dava vontade de pular páginas. Não sei se é porque Jane Austen escreve melhor, ou se porque eu estava mais calminha, li o livro inteiro, sem pular nem uma linha, com toda a paciência para os intermináveis interlúdios no campo em que, parece, nada acontece. Isso de mutilar a leitura de livros deve ter a ver com o fato de que recentemente comecei a gostar de saias curtas. Todas as minhas saias são abaixo do joelho, exceto uma, que eu nunca usava porque achava curta demais. Daí, de uns tempos para cá, comecei a achar todas elas escandalosamente compridas, e só quero vestir aquela curta. Ponho uma das antigas preferidas e acho que estou parecendo uma avó, ou uma daquelas moças evangélicas que usam saias compridas que nem o próprio cabelo.

É que no Brasil eu me sentia desconfortável de usar saias acima do joelho porque nos cinco quarteirões que tinha que andar para chegar no meu ponto de ônibus, ia ouvir uma dezena de “cantadas”, se é que se pode chamar assim os impropérios proferidos pelos frentistas de posto, motoristas de caminhão e até pedestres que tão costumeiramente tratam as mulheres brasileiras como se fossem pedaços de carne. Não precisa ser nenhuma beldade para ser humilhada dessa forma, só por querer andar com alguns centímetros de coxa à mostra. Isso, por sua vez, deve ser sintoma da relação ambígua que o brasileiro tem com o corpo e a sexualidade. Desfilar pelada no Carnaval pode, mas tomar sol de biquini no parque, jamais! Meu amigo Denis, que eu já citei aqui antes, escreveu um post que fala um pouco sobre essa estranha noção brasileira de privacidade.

Aqui é bem mais raro uma mulher ouvir comentários sobre seus atributos ao andar por aí. Outro dia estava esperando para atravessar a rua e uma loira de quase uns dois metros de altura, toda vestida de vermelho, parou do meu lado. A rua toda olhou pra ela, não tinha como não chamar a atenção, ela era muito alta e sol de verão fazia sua roupa gritar “vermelho!” Mas ninguém deu um pio sequer.

Já fazia muito que eu tinha vontade de poder usar o que bem entendesse sem ter que sofrer com o machismo disfarçado de galanteria. Quanto aos livros, desde que não se torne hábio, tudo bem pular algumas partes em nome da ansiedade. Para quem seguiu sempre tudo a ferro e a fogo, vem a calhar um pouco dessa contravenção, que ademais está totalmente dentro da lei (além do que, tenho certeza de que não sou a única, várias pessoas já comentaram comigo de ter lido o final de um livro antes do começo, ou ter parado no meio, ou pulado partes).

Curioso efeito colateral de morar em um novo país, esse de questionar velhos dogmas, como a leitura por ordem dos capítulos e a altura da barra da saia. E quer saber? Eu gosto!

Be Berlin

Bar à margem do Spree com letreiro anticapitalista

Meu primeiro contato com Berlim foi assistindo Fassbinder, Berlin Alexanderplatz, para uma disciplina que abordava representações da guerra no cinema ou algo parecido. Não entendi nada do Fassbinder, achei o filme bem chato. Agora nem me lembro mais do que se tratava, mas não gostar do Fassbinder acho que pegava mal, então guardei pra mim minha incompreensão e fiz o que pude para prestar atenção. Acho que não entendi nadinha mesmo, porque depois disso fiquei pensando que Alexander Platz era um personagem, histórico ou imaginário, que vivera em Berlim.

Foi só anos depois que fiquei sabendo da minha ignorância. Se não me engano foi quando visitei Berlim a primeira vez que me impressionei com a eminência da família Platz: Alexander Platz, Potsdamer Platz… aí minha irmã, ou meu cunhado, não sei ao certo, morrendo de rir me contou que Platz queria dizer praça. Virei motivo de piada eterna.

Partes do muro de Berlim expostas na Potsdamer Platz

Hoje em dia, quando penso na Alexander Platz, lembro da Identidade de Bourne. É emocionante para mim sair do metrô na praça e lembrar do filme – na série Bourne, as locações são personagens à parte. Independentemente de referências cinematográficas, é emocionante andar pelas ruas de Berlim, observar seus contrastes arquitetônicos, sorver a presença da história que está assim parece que no ar. E é muito legal a forma como os berlinenses são orgulhosos de sua cidade – em todo caso, aqueles que eu conheço são (embora obviamente não sejam orgulhosos das tragédias que se produziram ali no passado mais ou menos recente).

A prefeitura lançou este ano uma campanha chamada Be Berlin, incentivando as pessoas a contarem em um site o que elas fazem pela cidade. As fotos e as frases mais legais vão ser estampadas no tapume em torno do anjo que aparece em Asas do Desejo (que está sendo restaurado) e em algumas outras peças espalhadas pela cidade. Tudo a ver com a atmosfera de vanguarda e criatividade da cidade. Vejo Berlim como uma cidade que assume sua “urbanidade” de forma muito autêntica. As pessoas ocupam espaços abandonados fazendo ateliês e moradias, é fácil cruzar com alguma intervenção artística quando se anda pela rua. Claro que eles tem problemas de cidade grande (são mais de 3 milhões de habitantes), mas parece que sempre tem alguém pronto para propor uma ação criativa a respeito.

O famoso anjo, que está sendo restaurado

Homem de Ferro 2

Ontem não postei porque aproveitei o feriado fora de casa. Amanhã retomo a série de posts sobre Genebra, mas hoje quero falar sobre Homem de Ferro 2.

A ação evidentemente é o que chama mais atenção na parte 2 da franquia, e não decepciona. Porém, como de costume, gostaria de falar um pouco sobre o pano de fundo político. Certo, qualquer discussão política ou ética em um filme desse tipo vai ser superficial, como foi o caso já no primeiro Homem de Ferro. Mesmo assim, acho interessante observar as questões levantadas pelo cinemão, elas estão impregnadas de zeitgeist.

Homem de Ferro 2 “debate”, por assim dizer, o poder de dissuasão de armas de altíssima tecnologia. A questão vem no momento em que os Estados Unidos estão travando uma árdua queda de braço com o Irã, tentando impedir que os iranianos obtenham a bomba atômica. Ora, esta semana se falou muito sobre o tema. Cada vez mais analistas consideram que o Irã nuclear é fato, mais cedo ou mais tarde, e que os esforços deveriam se concentrar em lidar com esse novo cenário em vez de tentar em vão impedir que aconteça. O Homem de Ferro 2 trata justamente de um cenário como esse: enquanto o narcisismo de Tony Stark o impede de admitir que ele não pode ser sozinho responsável pela paz mundial, outros estão mais próximos do que ele imagina de desenvolverem trajes como o dele. Se alguém acredita ainda nessa história de carochinha de paz por posse de armas, eis aí uma boa oportunidade para mudar de opinião. Posse de armas nunca será para fins “pacíficos”.

Guerra virtual – Outra questão chave no filme é a vulnerabilidade dos sistemas de segurança. As guerra futuras podem muito bem ser ganhas no plano cibernético. Evidentemente, não seria da forma como vemos no filme, em que basta quebrar um firewall e se controla todo o armamento do inimigo. Porém, não faltaram exemplos recentemente da desordem que um ataque virtual é capaz de provocar. Nem é preciso ir buscar um exemplo grave (como os ataques de julho de 2009), basta olhar algo “trivial” como os hackers que se apropriam de contas de twitter de celebridades ou instituições.

O traje é a arma e o traje é Tony Stark - Marshall McLuhan falava da tecnologia como transformadora da sociedade, o Homem de Ferro leva isso ao paroxismo – por conta do reator em seu peito, ele e o traje são uma coisa só, uma arma capaz de (des)estabilizar as relações militares entre potências mundiais. E essa relação tem um lado sombrio – ele é vítima de intoxicação pelo mesmo equipamento que o mantém vivo. Assim, Tony Stark tornou-se involuntariamente o modelo a ser superado, somente a etapa do momento na corrida armamentista. Justo ele, que queria deixar a indústria da guerra para trás em nome de objetivos mais nobres.

O papel de mercenário desempenhado por Tony Stark antes de se tornar super heroi é ocupado agora por Justin Hammer, que quer lucrar em cima da tecnologia do homem de ferro. Para isso, ele vai se aliar ao russo Ivan Vanko (interpretado por Mickey Rourke), que tem uma agenda um pouco diferente: contas pessoais a resolver com Tony Stark. Ivan Vanko é o tipo de vilão que passa. O que não é passageira é a transformação desencadeada pelo surgimento de um novo tipo de armamento. A tecnologia, afinal, ainda lembrando Mcluhan, não tem moral. É uma caixa de Pandora, impossível saber de antemão qual seu impacto, tudo depende do uso que se faz dela. O pai de Stark havia imaginado o reator em arco para fins pacíficos, no entando ele acabou virando motor de uma nova geração de soldados.

Um pouquinho de romance (afinal, eu não sou de ferro!) - Pepper e Stark discutem como um velho casal, e a forma tão sintonizada como eles conversam (Pepper se refere a “nossa coleção de arte”) dá a impressão de que entre o primeiro filme e este alguma coisa aconteceu entre os dois que nós não ficamos sabendo. Mas não, embora Stark em sua angústia de quem está morrendo multiplique suas gentilezas a Pepper, muita coisa rola até que eles finalmente se entendam e se conciliem com aquele sentimento que você, eu e todo mundo que viu o primeiro filme já havia percebido há séculos.

Corta toda essa enrolação, vamos ao que interessa - Para quem não está nem um pouco interessado nos dilemas éticos limitados de Hollywood, as cenas de ação são ótimas. Ver a Scarlett Johansson detonando nas cenas de luta já vale o filme. A cena da corrida em Mônaco é um dos pontos altos – muito bom Tony Stark entrando no páreo em cima da hora e Mickey Rourke chegando com aqueles “chicotes high tech”. E o Homem de Ferro descobre que precisa sim de um side-kick: ninguém melhor do que o tenente-coronel Rhodey.

Som na caixa - a trilha sonora foi super bem escolhida, com bastante AC/DC e até uma faixa que soaria destoante (It Takes Two, de Rob Base) mas foi muito bem usada na briga entre Stark e Rhodey. Só faltou Iron Man, que toca no trailer, mas não no filme. Você nem precisa ser fã de heavy metal (eu não sou) para perceber que a trilha tão bem cuidada é uma das coisas que  fazem desse um filme de ação diferente dos outros (a atuação do Downey Jr é a principal).

É um filme para ser saboreado à luz dos dias atuais – Pode ser que Homem de Ferro 2 envelheça mal, mas neste momento está super sintonizado com o que estamos vivendo. Além da questão da dissuasão por posse de armas, que já está aí faz um tempo, o filme está repleto de referências a personalidades do mundo real, e o comportamento de Tony Stark é digno de uma dessas celebridades que figuram constantemente nos sites especializados por suas festas e escândalos (o próprio Robert Downey Jr até recentemente era notícia por seus problemas com drogas). Para completar, presença de Mickey Rourke, que é amigo pessoal de Downey Jr e recentemente saiu do fundo do poço como ele, é praticamente uma piada interna.

Finalmente, uma dica: fique até o fim dos créditos. Eu fiquei porque estava esperando que Iron Man fizesse parte das músicas dos créditos. Apesar da decepção com a falta dessa faixa, valeu ter esperado para ver a cena que dá a deixa para o próximo filme.

Tony Wilson era o cara

Fiquei conhecendo essa figura ao assistir em 2003 a biografia um tanto romanceada em que Steve Coogan interpreta Tony Wilson. O título em português é A Festa Nunca Termina, mas prefiro o original 24 Hour Party People, que transmite com mais acuidade o ritmo alucinado da cena musical de Manchester na virada dos 70s para os 80s. Lembro bem de quando vi o filme pela primeira vez. Eu não esperava nada do filme, era só um jeito de passar o sábado à tarde cercada de guloseimas, competindo quem comia mais calorias em uma sala do Unibanco Artplex ao lado de meu fiel escudeiro Eduardo. Só que fiquei realmente impressionada, adorei a história do jornalista que resolve produzir as bandas nascentes de Manchester e acaba lançando nada mais nada menos do que Joy Division, o futuro New Order. Além da gravadora Factory Records, Wilson abriu um lendário clube chamado Hacienda, onde havia espaço para as bandas novatas e onde, segundo o filme, pela primeira vez o público aplaudiu não a música, não os músicos, mas sim o meio – o DJ. Dá até arrepio só de pensar nesse momento histórico.

Não sei se eu gosto é do próprio Tony Wilson, ou se é do Steve Coogan, ou ainda se é do Tony Wilson que o Steve Coogan criou. Sei que meu coração apertou quando em 2007 ouvi no rádio a notícia da morte de Wilson. Ironia, eu estava no carro indo fazer minha matrícula na secretaria da PUC em um curso que se chamava justamente Comunicação e Pós Modernidade, bem o tipo de coisa que ele teria gostado de discutir. Ele trabalhou até o fim da vida como jornalista, na TV e no rádio. Foi em seu programa na TV Granada So it goes que os Sex Pistols fizeram sua primeira aparição na TV, em 1976.

A linguagem meio pedante do Wilson (ou seria do Coogan?) – o modo como ele fica citando autores e conceitos de filosofia enquanto apresenta programas de televisão ou conversa com as bandas me fez identificar imediatamente com ele. Ele pode parecer um chato, mas pessoalmente acho que Wilson citava Boécio enquanto apresentava a Roda da Fortuna porque era um sujeito que tinha prazer no conhecimento e gostava de encaixar isso no dia a dia para saborear melhor o mundo. Sem contar no efeito altamente irônico de ficar fazendo filosofia em cima do entretenimento de massa.

Por aquilo que podemos ver dele no You Tube, o Wilson de verdade parecia ser mais doce do que o criado por Coogan. Ele não parece ter tido aquele ar de superioridade que vemos em 24 Hour Party People. Mas aí é bom lembrar que ele próprio ajudou a escrever o roteiro do filme, e fez até uma pontinha como editor, numa cena em que manda cortar todo o blá-blá-blá filosófico com que Wilson introduz a Roda da Fortuna. Deve ter boa dose de verdade no Wilson de Coogan, ou no mínimo a imagem que Wilson tinha ou gostaria de ter de si próprio.

Não falta no filme um humor bem britânico, enquanto acompanhamos Wilson irritado ao ser escalado para matérias de fait divers (ele protesta que não estudou em Cambridge para cobrir assuntos como um anão dando banho em um elefante) e seus relacionamentos e desentendimentos com figuras da música. Impagável a cena em que Wilson, o produtor Martin Hannett e o resto do Joy Division largam o baterista tocando no telhado do estúdio e vão embora. E o quer dizer do vocalista do Happy Mondays que, muito louco de ácido, sequestra a fita com as faixas do novo álbum e pede resgate?

Tony Wilson era um idealista tão persistente que chegava quase à ingenuidade. Ele nunca ganhou nenhum dinheiro com o Hacienda ou com a Factory Records, e acabou tendo que se desfazer de ambos. Quando no filme ele vende a Factory para a London Records, os caras de Londres não acreditam que o contrato (escrito com sangue de Wilson) assinado entre a Factory e as bandas previa que a gravadora não detinha direitos sobre nada. O negócio de Wilson era produzir música, não ganhar dinheiro com ela.

Ele sentiu o que era viver à risca o lema “algumas pessoas fazem dinheiro, outras fazem história”. Fiel a suas posições políticas, nunca quis fazer seguro de saúde privado, e teve que batalhar com o sistema de saúde público britânico para obter tratamento quando ficou doente. Se alguém se sentia tentado a torná-lo motivo de piada por suas escolhas idealistas, tenho certeza de que ninguém riu quando ele morreu. Tantos anos de consistência trouxeram respeito por ele, que é uma peça indispensável para contar a história do rock britânico.

Só mais um adendo: Steve Coogan

Tendo dito isso sobre o filme e sobre o Tony Wilson, resta dizer que Steve Coogan é um ator que me intriga. Ele é sempre marcante nos seus papéis. Depois de 24 Hour Party People, vi Coffee and Cigarettes, do Jim Jarmusch, onde Coogan interpreta a si mesmo e está maravilhosamente insuportável! Ele trata o Alfred Molina com tanto desprezo que só pode ser uma antítese do comportamento real dele, não consigo imaginar o cara sendo escalado para fazer um papel de idiota na própria pele a não ser que ele fosse o completo oposto. Depois, ele fez o embaixador Mercy em Maria Antonieta, que tenta em vão chamar a atenção da delfina para as questões delicadas de diplomacia enquanto ela, adolescente, está preocupada com rendas, sapatos e arranjos de cabelo. Adoro quando Maria Antonieta se recusa a falar com a amante de Luís XV, alegando que ela é uma prostituta, e Mercy a repreende chocado: “your royal highness!” O diplomata, mais velho, experiente, tem que se dirigir à delfina com essa pomposa fórmula de tratamento, mesmo que seja para censurá-la. Finalmente Coogan é o protagonista de um dos meus filmes favoritos, Hamlet 2, em que interpreta um professor de teatro frustrado em uma pequena cidade no Arizona que decide encenar uma continuação da peça de Shakespeare, escrita de próprio punho, para tentar salvar o curso de teatro da extinção e espantar fantasmas de sua infância.

All that jazz

Woody Allen and his New Orleans Jazz Band vieram a Genebra. No dia em que comprei o ingresso, mais de um mês atrás, não conseguia nem pegar no sono de pensar que ia ficar cara a cara com o gênio. Não tem nenhum filme dele que eu não tenha gostado de ver, mesmo os que são mais fraquinhos ainda são interessantes, e tem aqueles inesquecíveis que geraram piadas internas eternas entre meu marido e eu. Ontem, chegou o grande dia.

O show foi na Arena, que seria o equivalente de um Credicard Hall daqui, mas mais parecido com um Ginásio do Ibirapuera do que com o Credicard Hall, porque parece uma grande arquibancada de ginásio mais que uma casa de shows. A Arena é enorme para os padrões de Genebra, e nós que havíamos comprado um ingresso barato demos a sorte de poder sentar mais perto do palco porque eles não haviam vendido todos os lugares e reacomodaram todo mundo nos melhores disponíveis. O palco era pequenininho, lá embaixo em meio à pista VIP de cadeiras removíveis.

Achei um pouco estranho um show de jazz num lugar que se parece com um ginásio, pois jazz tem aquele gostinho intimista, pra ouvir sentado à uma mesa de bar. Mas eu estava tão empolgada de ver o Woody Allen, e de ouvir jazz ao vivo pela primeira vez desde que me mudei para cá, que resolvi abstrair esse detalhe.

Na porta do show umas mocinhas estavam distribuindo amostras grátis de batata chips, eu logo me perguntei de quem tinha sido a brilhante ideia de espalhar saquinhos barulhentos por toda a plateia de um show de jazz. Provavelmente foi da mesma pessoa que resolveu organizar um show de jazz em um ginásio. Para nossa sorte, só um dos nossos vizinhos resolveu comer suas batatas, e logo no começo. Quando ouvi o barulho do pacote abrindo, lembrei da vez em que um amigo deu um esculacho em uma pessoa que abriu vagarosamente um Sonho de Valsa durante uma ópera no Municipal de São Paulo (achando que abrir devagar ia diminuir o incômodo, enquanto produziu somente aquela tortura de ouvir o barulho por mais tempo). O que me consolou foi que a amostra grátis era bem muquirana, então o sofrimento não podia durar muito.

Os músicos entraram no palco um a um já tocando uma lânguida Only You. Woody entrou por último com seu clarinete, e foi somente quando ele apareceu que os aplausos vieram. Estranhei um pouco essa plateia, achei meio desrespeitoso com os outros músicos, mas ela teve chance de se redimir depois aplaudindo os solos dos excelentes trombone e trompete e do sensacional líder da banda e banjo, que cantava aqui e ali com uma voz deliciosa de jazz. O pianista também teve seus momentos de glória, o baixista fez um único solo e para o baterista sobrou ficar de acompanhante mesmo, last but not least. Aliás, as músicas sempre continham solos dos instrumentos de frente, e daí a plateia achou por bem aplaudir todos os solos, tal e qual criancinhas repetindo bê-a-bá na escola, entregavam suas palmas solo após solo, de modo educado, mas sem muita emoção ou espontaneidade. Ou eu que sou severa demais nesses genevois, coitados, depois que o Calvino proibiu música e dança e obrigou as crianças a estudarem oito horas por dia seis dias por semana dá para entender que o trauma demore tanto para sair.

Woody Allen pegou o microfone após duas músicas e agradeceu a nossa presença (não a minha evidentemente, mas a da plateia como um todo) e com aquele jeito charmosamente desajeitado disse que eles tocam pelo próprio prazer e que ficam agradavelmente surpresos pelo fato de que alguém se interesse por assistir. “Sit back, relax and have a good time”, ele concluiu. Eu estava tão entusiasmada que não dava nem para me recostar no assento, seguia cada música como se estivesse assistindo uma final de vôlei do Brasil nas Olimpíadas (não vou dizer um jogo da Copa porque nesses eu mal consigo ficar sentada e não paro de gesticular).

Estava procurando nos jornais de Genebra o nome dos demais integrantes da banda para poder dizer a vocês (não levei caderninho para anotar porque estava lá para assistir, não para cobrir) mas, por incrível que pareça, são 9h e não tem NADA sobre o show em nenhum dos principais jornais. Nem no mais respeitável, nem no mais fácil de ler, nem no equivalente ao Notícias Populares, nem no 20 Minutos! Estranhíssimo, ainda mais considerando que não é todo dia que acontece um show desse tipo por aqui. Acho que eles não costumam fazer cobertura de eventos, somente dão o show da seção de serviços e pronto. Para mim ficou parecendo um buraco no jornal. Em São Paulo a primeira coisa que eu fazia em dia seguinte de show era abrir o Estadão para ler o Jotabê Medeiros e saber como havia sido, se eu não tivesse ido, ou ver se concordava com ele, se tivesse.

Os caras da mesa de luz levaram algum tempo para perceber que alguns spots estava indo bem na cara de quem sentava nas cadeiras mais altas, mas acabaram resolvendo o problema. Isso, somado ao fato de distribuirem batatinhas e de organizar o show na Arena me fez pensar que fazer um curso de produção cultural não era algo tão vão quanto eu pensava na época em que eu mesma trabalhava nos bastidores de palcos e me dei o trabalho de assistir aulas sobre o assunto. Tem gente sem noção nesse negócio, e essas gafes mais ou menos importantes na produção do show do Woody Allen me deixaram meio com vergonha alheia. Um bom produtor (não olhem para mim, saí do business quando ainda era estagiária) sabe que show mal produzido é como uma falta de educação com quem está se apresentando. Pensei comigo: “perdoa-os, Woody, eles não sabem o que fazem. Como você há bem de saber, Freud explica”.

Mas nem os pecadinhos da produção conseguiram atrapalhar o show. Lá pelas tantas, o vocalista-banjo começa “By the light, by the light, by the light of the silvery moon…” e nós demos um pulo na cadeira, meu marido e eu. Para quem assistiu a versão original de Os Produtores, do Mel Brooks, essa é a música que Zero Mostel e Gene Wilder cantam no bar acompanhados por um bêbado enquanto comemoram o tão esperado fracasso da peça. Rolou aquela intertextualidade na minha cabeça que faz a gente se empolgar mais ainda com as coisas de que gosta.

O trombone e o trompete, além do pianista, tiveram também seus momentos de vocal. Dos músicos de frente, só o Woody não cantou. Mas o que eu mais gostei foi quando o trombone se levantou de sua cadeira ainda tocando e foi até o microfone, para entoar todo coquete: “all the girls go crazy ’cause of the way I walk”, ao que o banjo ecoava “’cause of the way he walks”. Com aquela voz macia e aquele jeitinho de cantar meigo, ao mesmo tempo brincalhão e sedutor, era para deixar todas as garotas loucas mesmo.

Saí de lá renovada, feliz da vida, e agradecida por poder ver o Woody Allen no palco. Em São Paulo ia ser mais difícil. Pois é, em Genebra também há coisas interessantes para se fazer, basta saber procurar.

PS: mesmo na Wikipedia estava difícil encontrar os nomes dos músicos, mas para quem quiser saber mais descobri que existe um documentário sobre a New Orleans Jazz Band (não sei se a formação atual é a mesma dessa época): http://www.imdb.com/title/tt0141986/
Acho que da próxima vez vou levar o bloquinho mesmo. Afinal, não foi à toa que estudei jornalismo.

Distração garantida ou seu dinheiro de volta

Mais uma atividade lúdica para o meu dia: agora tenho que cortar no meio os meus comprimidos de tireóide. Lá se vão seis anos que eu escrevi uma crônica falando sobre o tempo que passa através das cartelas de remédio, propondo essa nova forma de contar os dias, e naquela época eu nem tinha nenhum problema crônico de saúde, só a minha miopia exagerada mesmo, e mais umas coisinhas temporárias.

Daí depois de tomar um susto e cair na gargalhada com os resultados dos meus últimos exames, hoje consegui falar com o médico, pontualmente às cinco da tarde, horário que a secretária tinha mandado telefonar. Ah, a dose que você está tomando está muito alta – eu achando a maior graça de ver meu corpo reagindo depois de dois anos na preguiça e ele como se estivesse anotando os pedidos no caixa do Mc Donalds. Você comprou os comprimidos da receita que eu dei? Não, não comprei ainda. Então compra e corta no meio – tudo isso para ele não me mandar uma receita nova pelo correio. Ah, tudo bem, então, obrigada.

Fui na farmácia e voltei para casa com a caixinha, que cortada ao meio vai dar para meio ano, se tudo permanecer assim. Legal é que os comprimidos vem com uma linha que os divide em quatro partes, que nem uma pizza pré-cortada, vai facilitar o meu trabalho. Fora que, caso uma nova adaptação de dosagem seja necessária, é só pegar mais ou menos “fatias” – remédio modular. De verdade mesmo, no entanto, eu queria era poder me esquecer deles, e ter que contar o tempo em cascas de banana, saquinhos de chá ou outra unidade mais apetitosa.

Só muda de endereço (e umas coisinhas mais)

Acontece que quando você muda de país, a sua vida no seu país de origem, que era simplesmente a vida como você conhecia, passa a ser isso – a sua vida no seu país de origem. Então tudo o que você fazia e as pessoas que você via e os seus hábitos mais simples, como tomar chá no sofá lendo o jornal, passam a fazer parte daquele conjunto de coisas que era o seu país para você. A saudade de casa então vira um saco de gatos, tem de tudo lá dentro, pessoas, lugares, aulas, encontros, sua mesa no escritório, os almoços com amigos, o ponto de ônibus… até a lavanderia que alagava quando chovia entra na amálgama de saudade, porque lá no Brasil você podia ter uma lavanderia com uma janela que não fechasse completamente nunca, já que a temperatura nunca caía abaixo de 10 graus.

Você não é como as demais pessoas que estão nas ruas da sua nova cidade. Algumas coisas surpreendem de forma positiva, outras nem um pouco. Você não é dali, é brasileiro, mas o que é que isso quer dizer? Pra saber, você tem que pensar em tudo aquilo quer você deixou para trás. Ah, mas ser brasileiro é ler as crônicas do Marcelo Rubens Paiva curtindo uma preguiça no sábado de manhã? Separar o lixo reciclável mesmo sem ser obrigado e lotar o porta-malas do carro para levar no Pão de Açúcar? Deixar passar quatro ônibus lotados antes de conseguir entrar no seu? Aproveitar a hora do almoço para dar risada com os amigos e enrolar tanto quanto possível para esticar esse momento, inventando pausa para o café, mesmo se você não estiver particularmente a fim de tomar café? Se sentir péssimo de ver as crianças pedindo dinheiro no farol e saber que mesmo se você der o dinheiro ele vai parar na mão de um explorador que deveria estar na cadeia?

Pode ser tudo isso, mas no final é só porque a sua vida era assim. Não porque isso seja algo da identidade brasileira. Mesmo assim, as pessoas aqui são diferentes. Elas nunca vão entender como é que uma cidade pode se tornar o monstrengo que São Paulo virou. Como é que pode ter tanta criança fora da escola. Nem como é que as pessoas podem se cumprimentar com beijos no rosto ao serem apresentadas umas às outras. E elas não fazem a menor ideia de quanto é doído para você ver o seu país caminhando na contra mão, cometendo graves ofensas à liberdade de imprensa, e mostrando que ser brasileiro, afinal, é engolir todo tipo de falcatrua e impunidade – e ai de quem for protestar no seu direito de cidadão, a tropa de choque espera com cassetete na mão em cima dos cavalos, supostamente para defender o “direito de ir e vir”. Tout compte fait, não dá para ter nostalgia do que é ser brasileiro, já que o sentimento pelo seu país é permeado por essa raiva de que as coisas sejam tão mal geridas… é bem ilustrativo o diálogo que eu tive com a balconista do Consulado:

“É melhor você não transferir seu título. Fica com o seu título do Brasil e daí é só você justificar pela internet no dia da eleição. Se você transferir seu título, você só vai poder votar pra presidente.”

“Mas moça, eu quero votar para presidente, é por isso que eu estou aqui.”

A cara da mulher era de quem nunca tinha ouvido isso antes, mais ou menos, “de que planeta você veio?”

Algumas coisas, afinal, não mudam nada por você estar longe do seu país natal. Você continua indignado. Só que longe dos amigos e da família.

Decifrando Twilight

Desculpem, vou fazer um post parecido com o anterior. Desta vez, vou atacar de psicanalista para falar de Crepúsculo. Aliás, como nunca vi os filmes nem li os livros, só conheço a história de uma sinopse, aqueles que leram podem achar que estou deixando alguns pontos de fora ou que não estou captando alguma nuance – não vou falar de episódio por episódio, só de algumas linhas gerais. Os psicanalistas talvez também discordem de várias interpretações. Fiquem à vontade para criticar, complementar, responder. Não pude resistir a escrever sobre essa história, porque não se fala de outra coisa e tem-se discutido muito sobre a mensagem que Crepúsculo passa para as crianças, principalmente as meninas. Além do mais, como alguns de vocês sabem, eu também escrevo para crianças, e por isso me interesso em saber o que elas estão vendo/lendo. Prometo que o próximo post vai ser sobre outro assunto, sem interpretações intelectuais da cultura pop.

Bom, é óbvio que a história é mais voltada para o público feminino mesmo. A protagonista é uma menina, que vai simbolicamente passar por vários conflitos e situações que a maioria das meninas passa. Não estou falando literalmente, ok? Claro que a maioria das meninas não vai enfrentar vampiros e lobisomens no dia a dia, embora muitas vezes as pessoas a nossa volta possam ser descritas como tais, ou seja, como seres que, apesar das aparências “normais”, se transformam em determinadas situações em outra coisa que nós não reconhecemos.

Acho que é bom citar um comentário que li em Fadas no Divã, um livro excelente de Mario e Diana Corso, que analisa desde contos de fadas tradicionais até Harry Potter e Calvin do ponto de vista da psicanálise (não, eles não falam de Crepúsculo, porque a edição data de 2006, antes desse fenômeno). Quando passam a analisar as histórias mais recentes voltadas para as crianças, inclusive os filmes da Disney, eles levantam o ponto da suposta falta de qualidade de tais histórias. Mario e Diana rejeitam a ideia de que Potter ou o Ursinho Pooh interessem as crianças somente pela enxurrada de merchandising disponível. Se as crianças gostam, eles afirmam, é porque a história tem algum significado para elas, aborda temas que lhe são caros. Podendo lidar com esses temas nas histórias vividas por seus personagens nos livros ou nos filmes, as crianças tem mais facilidade para se desenvolver e superar conflitos.

Voltando a Crepúsculo, então, não tenho dúvida de que existem muitas outras opções de qualidade literária e cinematográfica superiores a trama de Stephenie Meyer – que, aliás, passou por um processo parecido com JK Rowling no sentido de o filme ter sido rejeitado por um grande estúdio para depois fazer a felicidade da pequena companhia Summit Entertainement (no caso de JK, apesar de seu texto ser bastante bom a meu ver, ela teve seus originais rejeitados por várias editoras antes de fazer sucesso). Porém, problemas de estilo à parte, acredito que as crianças e adolescentes – e os adultos também, pois muitas mulheres são ávidas leitoras dos romances – todas elas escolhem Crepúsculo porque trata de temas que lhe são familiares e relevantes.

Tendo dito isso, vamos à trama em si. O começo é bem típico da narrativa clássica – a protagonista, Bella, tem que mudar para uma pequena cidade com seu pai porque sua mãe precisa ficar livre para viajar com seu segundo marido, que é atleta. Simbolicamente, esse começo já trata da separação entre mãe e filha, aquela história que vocês já conhecem, de quando a filha, ainda bebê, tem que reconhecer que existe um homem no meio do caminho entre ela e a mãe e que a mãe “pertence” a esse homem, e está disponível para ele – o que inevitavelmente quer dizer que está menos disponível para ela, filha. Essa separação é vivida por todas as meninas, quando crescem o suficiente para se tornarem mais independentes do peito da mãe e para reconhecer que dividem sua atenção com o pai. Por extensão, essa separação vai trazer a emancipação da filha e a sua própria iniciação sexual, quando for o momento, várias anos depois. No próprio Crepúsculo, não são vários anos que separam a mudança de Bella de seu casamento com Edward, mas acontecem tantos eventos relevantes no meio do caminho que podemos traçar um paralelo entre esse período do primeiro ao quarto livro com o período de amadurecimento de uma menina.

Então Bella, longe da mãe, que preferiu viajar com o seu jogador de beisebol a segurar sua filhinha no colo para sempre, encontra esse rapaz, Edward, que é irresistivelmente bonito e exerce uma atração muito forte sobre ela. Minha irmã mais nova me contou que, no primeiro filme, Edward não pode ficar perto de Bella porque exerce um poder forte demais sobre ela, como se fosse uma energia que tomasse conta dela. Nesse início, me parece que Edward e o pai de Bella são simbolicamente a mesma pessoa. Bella se afasta da mãe e pode enxergar o pai, com quem mora. Mas é preciso manter uma distância, porque o pai não pode ser seu, apesar de exercer todo esse fascínio sobre ela. Alguma semelhança com uma menina pequena, cujo primeiro interesse pelo sexo oposto vem na própria figura do pai? Parece fazer todo sentido.

No início do segundo livro, ocorre um incidente no aniversário de Bella, quando ela corta o dedo ao abrir um presente e um dos vampiros do clã de Edward não consegue se controlar ao ver o sangue e parte para cima dela. Edward consegue defender sua amada, mas decide que, diante desse risco que ela corre estando perto dele e de sua família, é melhor ele se afastar, pelo bem dela. Esse é o afastamento que o pai impõe à própria, filha, ainda muito cedo, quando deixa claro que seu desejo sexual está voltado a outra mulher. Esse momento marca a meu ver a separação entre o Edward-pai e o Edward-namorado. Quando ele voltar, não vai ser mais uma representação espelhada do pai, mas sim o “príncipe encantado”, o homem agora disponível, com quem Bella finalmente vai poder viver esse amor intenso.

Quando Edward vai embora, Bella sofre e perde todo o interesse pela vida. Esse estado depressivo em que ela passa o segundo livre-filme, ansiando por seu amado, provoca muitas críticas da parte de mães de meninas, que apontam o filme como sexista, com uma mensagem de que uma garota só é feliz quando seu homem está por perto. Compreendo essas críticas e acho que as mães que se incomodam com esse estupor de Bella à espera de Edward podem e devem conversar com suas filhas a respeito, e mostrar quantas coisas podem nos trazer alegrias mesmo quando não estamos acompanhadas daquele menino tão desejado. Mas essas próprias mães hão de convir comigo que, quando se é adolescente e se está apaixonada, parece não haver outra coisa no mundo além daquela pessoa, e deixamos de prestar atenção a tantas coisas a nossa volta. Harry Potter, concorrente de Crepúsculo,  também trata dessa paixão adolescente em seu filme mais recente, Harry Potter e o Príncipe Mestiço. Embora na história de Potter o tom seja mais bem humorado, a súbita paixão de Ronnie por Romilta Vane ilustra bem o quanto ficamos cegos de desejo por uma figura que, muitas vezes, nem sabemos ao certo quem é (Ronnie se apaixona por Romilta, sem nunca ter sido apresentado a ela, ao comer bombons que continham uma poção de amor).

No entanto, Bella vai se aproximar de outro homem na ausência de Edward. Ela começa a estreitar seu relacionamento com o amigo de infância Jacob, e vai daí em diante ficar dividida entre os dois meninos por algum tempo. Esse interesse de Bella por Jacob é importante porque marca o momento em que ela vai olhar para outro homem que não o pai. Somente depois de ter reconhecido Jacob como um possível parceiro é que ela vai poder se unir a um Edward que já não é mais o pai. Já li sobre a cena em que Jacob tira a camisa e mostra seu tórax musculoso e sobre a tensão sexual que surge então. Mais uma vez, Bella vai descobrir um segredo do universo masculino – quando ela descobre que Jacob é lobisomem, e tem portanto poderes e características que ela nunca teria suspeitado (principalmente nunca antes de vê-lo sem camisa), é como se a adolescente descobrisse que aquele menino que esteve ao lado dela desde a infância tem “poderes” sexuais – é o momento em que ambos se tornam sexualmente maduros e reconhecem isso um no outro.

Edward acaba voltando e por algum tempo Bella fica indecisa, até finalmente concordar em se casar com ele. Eles se casam e descobrem durante a lua de mel que Bella está grávida. Aqui me parece que a autora Stephenie Meyer, que é de orientação bastante conservadora, está chamando a atenção para os riscos de um envolvimento sexual. Não há sexo sem consequência, e no caso de Bella a consequência é que ela quase morre ao dar à luz o bebê meio humano, meio vampiro, dela e de Edward. Talvez aqui o fantasma do pai esteja voltando para alertar a menina que o incesto é punível com a morte. Ou talvez possamos ver como um ritual de passagem em que o início da vida sexual pressupõe uma espécie de morte – aquela existência inocente de Bella vai ficar para trás – ela é salva por Edward que a transforma em vampira. Acho muito significativo o fato de que a mordida do vampiro, que tem esse apelo erótico tão forte (muitos críticos de Crepúsculo acham essa trama água com açúcar de sexo após o casamento uma afronta à reputação libidinosa dos vampiros ao longo da história), venha somente depois do casamento e depois do nascimento do bebê. Sem dúvida essa ordem ilustra o que seriam as prioridades para uma autora conservadora: o casamento, depois, a procriação, e só então o sexo recreativo. Para poder finalmente fazer parte do mundo de seu amado e receber a tal mordida, Bella precisa passar por uma gravidez complicada e um parto de risco. Há um preço a pagar pelo prazer sexual em Crepúsculo, e ele é bastante alto. Andei lendo por aí que a história de Bella e Edward fornece às crianças e adolescentes uma perspectiva segura da sexualidade. Segura, só se for do ponto de vista dos pais preocupados com uma iniciação sexual precoce (aliás, muito válida). Para as crianças e adolescentes apaixonados por Bella e Edward, todo o drama e os perigos dessa passagem na vida estão bem ilustrados.

Let it play

Não consigo parar de ouvir a gravação do Jamie Cullum de Don’t Stop the Music. Além de explorar minuciosamente as possibilidades jazzísticas da música com seu piano, fez uma interpretação nada vulgar e muito intensa desse sucesso recente das pistas de dança.

Então, na minha obsessão, fui procurar mais detalhes sobre a música na Wikipedia. Não tem nada lá ainda sobre a versão do Jamie Cullum, mas achei engraçado que o verbete diz “[...] and [the song] is lyrically about a having fun on the dancefloor”. Having fun on the dancefloor? Se alguém ainda não tinha percebido o teor erótico da música, faz favor de ouvir a versão do Cullum.

É simplesmente irresistível o modo como ele encadeia

Do you know what you started
I just came here to party
But now we’re rocking on the dance floor
Acting naughty
Your hands around my waist
Just let the music play
We’re hand in hand
Chest to chest
And now we’re face to face

E aí vem o piano com o refrão para nos levar embora, bem do jeito que alguém no auge do desejo se deixa engolir por ele.

Olhando bem, na verdade, a letra é até meio explícita demais (por exemplo no verso “keep on rocking to it” – imagina a reação que isso teria causado na década de 1950!). Curioso é que, como parece ser a regra na música pop nos últimos tempos, ninguém se importa em ser explícito (excelentes paródias nesse sentido são feitas pelo humorista Jon Lajoie, procurem no You Tube). Talvez seja exatamente por isso que a insinuação que o Cullum explorou na versão dele tenha passado despercebida pelo autor do verbete na Wikipedia – excesso de exposição causa insensibilidade, pelo menos nesse caso. Lembra a história do Mc Luhan falando sobre o caráter pouco sexy da minissaia? Aí vem o Jamie Cullum e é como se ele fizesse o caminho contrário, ele vai mostrando um pouco de cada vez, conforme vamos chegando mais perto dele e o clima vai esquentando. Dá gosto de ver uma apropriação tão elegante da letra e da melodia! Vou passar o fim de semana todo pedindo ‘please don’t stop the music…’

PS: Pra quem quiser ouvir, faz parte do álbum novo do Cullum, ‘Pursuit’ e está disponível no portal da Rádio Eldorado.