Que privilégio poder ouvir a própria língua como se fosse estrangeira. Português de Portugal é como brincar com um jogo de espelhos, com o conteúdo e as aparências das palavras, descobrir coisas que você não sabia que estavam ali. É como se alguém entrasse na sua sala e mudasse os móveis de lugar, daí você chega e vê que tem alguma coisa diferente, embora seja a mesma sala. Só que aquele móvel que você nunca via porque estava encostado na parede agora fica no meio da sala, e as miudezas de dentro da gaveta em cima da estante, e ali onde você pisava no chão puseram um tapete.
Além de tudo, a gente aprende que um monte de coisas que parecem erradas na verdade também são corretas – como dizer ‘mais pequeno’, ou usar o pretérito imperfeito como se fosse futuro do pretérito (‘gostava’, em vez de ‘gostaria’).