Foi assim: vi um cartaz na rua anunciando o Guitare-en-Scène, um festival aqui perto em que a atração principal era Motörhead. Fiz uma anotação mental para comentar com meu marido, que é super fã de heavy metal (ou rock and roll, como o Motorhead prefere se definir) e esqueci. Na quinta à noite ele comenta comigo:
- Vai ter show do Gil este fim de semana.
- É, eu vi. Mas você não está a fim de ir não, né?
- Eu não! Se tivesse Motorhead, eu até ia…
- Vai ter Motörhead.
- Você está brincando comigo! Sério?
Quinze minutos depois já estávamos imprimindo nossos ingressos.
O show era em Saint-Julien-en-Genevois, uma cidadezinha simpática a poucos minutos de Genebra. Você entra nela passando por uma rua de Perly, que na real é a mesma cidade, só que do lado suíço da fronteira. No final da rua tem uma guarita (vazia) que seria a alfândega, e dois metros à frente já é a França, Saint-Julien-en-Genevois.
Não tinha trânsito no caminho e como chegamos cedo foi super fácil parar o carro, em um gramadão onde dois voluntários da organização do show instruíam os motoristas a estacionar de forma ordenada para garantir espaço para todo mundo. O estacionamento era de graça. Aliás, muitos membros da equipe de organização estavam trabalhando de graça. É bem comum aqui os festivais e outros eventos abrirem inscrições para voluntários que queiram ajudar com alguma tarefa.
O festival estava montado dentro de um complexo esportivo, com bastante espaço para um evento em que se esperavam cinco mil pessoas. Tinha um monte de barraquinhas de comida, incluindo os básicos crepe e sanduíche, e também outras coisas que nunca imaginei ver em um show, como bufê de saladas, tapenade, pratos típicos suíços e até um bar de vinho! Muito lugar para sentar, tanto a céu aberto como debaixo de alguns toldos. Havia muitas crianças e alguns casais aparentando mais de sessenta anos, com uma pinta nada heavy metal, tipo vestidinho da Lacoste e calça social.
O palco principal estava montado debaixo de uma cobertura bastante grande e no fundo havia cadeiras para quem quisesse ver o festival sentado. O primeiro show, marcado para 19h, era da dupla belga Black Box Revelation.
O som era muito legal, o guitarrista debulhava tudo, uma pena que houvesse tão pouca gente para assistir. Ele fazia o baixo usando a guitarra, mudava de estilo com fluidez, solava, ia, voltava, dialogava, sensacional! O baterista era muito empolgado, dava gosto de ver. Das três bandas da noite, foi a que eu provavelmente mais gostei, em grande parte porque é uma linguagem que fala comigo. Coloquei um video deles ao vivo em um festival na Bélgica para vocês conferirem. A qualidade do áudio não é das melhores, mas dá para sentir a pegada dos caras ao vivo.
Depois, veio Nashville Pussy, uma banda composta de uma baixista, um baterista, um vocalista que é uma figura e Ruyter Suys, a guitarrista mais irada que já vi. Onde é que já se viu, aquela mulher faz jus à expressão guitar hero! Fiquei hipnotizada pela performance dela, que aliás tocou de sutiã de oncinha e jaqueta por cima. O som deles é tingido de blues, como era de se esperar de uma banda vinda do sul dos EUA, mas as letras são totalmente rock and roll do tipo mau comportamento, falando sobre episódios com drogas e mulheres.
Blaine Cartwright, o vocalista, que também faz segunda guitarra e é casado com Suys, é totalmente carismático, tem um controle incrível da plateia e fala um palavrão a cada duas ou três palavras. Depois de saudar a plateia com um “hello, mother*******!”, disse aos franceses que a França era um país legal mas que eles precisavam de mais maconha. Ofereceu o whisky que estava bebendo em um copinho plástico, mas voltou atrás: “acho que eu preciso dele mais do que vocês.” Depois, lá perto do final, disse que eles iriam assinar tudo que os fãs quisessem na barraquinha de merchandising após o show: “assinaremos camisetas, bonés, peitos, o que vocês tiverem nós assinamos”. E em seguida: “vocês querem um compromisso da nossa parte? Prometemos que todo dinheiro que arrecadarmos com merchandising hoje irá para compra de drogas. Nós ainda vamos tocar na Holanda.” Mesmo me opondo fortemente ao consumo de drogas, não pude me conter e caí na gargalhada. O cara é uma peça rara, ser bad boy é o seu negócio. E não é todo dia que se vê uma banda tão acessível aos fãs, achei muito legal da parte deles se disporem a dar autógrafos e tirar fotografias com todo mundo.
Finalmente, depois de muita expectativa, entrou em cena o Motörhead, pontualmente às 22h45. Eu não entendia dois terços do que o Lemmy, o baixista e líder da banda, falava. Achei que era por causa do acento britânico, que sempre me dá um pouco de trabalho, mas meu marido, que ao contrário de mim acha mais facil entender os brits do que os americanos, disse que ele estava falando praticamente um cockney (gíria britânica que é quase um dialeto), não era para entender mesmo.
Não entendi mas gostei do som, que era bem mais barulhento que as bandas anteriores. O baterista, um loirão com visual anos 80, fez um solo que era para assistir ajoelhado.
Adorei o fato de que mesmo de pé no meio da multidão consegui ver tudinho, porque a plateia aqui na Europa em geral é bem mais tranquila. Tinha algumas rodinhas, que não causaram problemas, e os aventureiros de sempre que vão nos braços da galera:
Claro que sempre tem mais graça quando se conhece as músicas. Eu estava curtindo muito o show inteiro, mas foi no bis, quando eles tocaram Ace of Spades, a única música que eu conhecia em todo o set, que comecei a pular. Foi muito divertido e, não fosse pelo cansaço, teria voltado no domingo para ver o Gil também. Vai ficar para a próxima, agora todo ano vou marcar presença em Saint-Julien, no festival mais gostoso a que já fui!





